"Shore"

Ano: 2020
Selo: ANTI-
Gênero: Folk, Pop de Câmara, Indie Folk
Para quem gosta de: Father John Misty e Bon Iver
Ouça: Going-to-the-Sun Road e Can I Believe You
Nota: 8.6

Crítica | Fleet Foxes: “Shore”

Durante mais de seis décadas, o fotógrafo Hiroshi Hamaya (1915 – 1999) se propôs a registrar diferentes alterações políticas, culturais e ambientais em território japonês e ao redor do mundo. São milhares de fotografias que vão da vida bucólica no interior do país à agitação dos grandes centros urbanos, de paisagens pacíficas cobertas pela neve a cenários consumidos pela força descomunal dos vulcões. Imagens que evocam a sensação de movimento e permanente transformação, conceito que se reflete com naturalidade na capa de Shore (2020, ANTI-), quarto e mais recente álbum de estúdio do Fleet Foxes, onde as cicatrizes de uma geleira em processo de derretimento indicam a multiplicidade de caminhos percorridos por Robin Pecknold durante toda a execução da obra.

Primeiro álbum de inéditas do grupo de Seattle desde o material entregue em Crack-Up (2017), Shore é o registros que mais se distancia dos antigos trabalhos da banda – e isso é ótimo. Longe das orquestrações barrocas e músicas que se entrelaçam dentro de um mesmo território criativo, Pecknold garante ao público uma obra de essência diversa, onde cada composição merece ser observada isoladamente. Das vozes femininas de Uwade Akhere e Meara O’Reilly, presentes em grande parte do álbum, passando pelas ambientações jazzísticas e improvisos que surgem em momentos estratégicos do disco, como em Featherweight, poucas vezes antes o Fleet Foxes se permitiu tanto dentro de estúdio.

O resultado desse processo está na entrega de uma obra que naturalmente exige tempo até ser absorvida em sua totalidade. São retalhos instrumentais e poéticos que surgem e desaparecem durante toda a execução do álbum, como se Shore fosse concebido a partir de incontáveis fragmentos sutilmente encaixados por Pecknold em um intervalo de mais de dois anos, tempo que o disco levou para ser produzido. E não poderia ser diferente. Gravado em diversas locações, como o cultuado Electric Lady, em Nova Iorque, além de outros estúdios que vão de Los Angeles à Paris, o trabalho, diferente do homônimo debute de 2008 ou do melancólico Helplessness Blues (2011), parece jogar com a experiência do ouvinte, convidado a se perder em um território de pequenas incertezas.

Exemplo disso acontece em Going-to-the-Sun Road. Completa pela presença do brasileiro Tim Bernardes, a canção ganha forma em meio a incontáveis camadas instrumentais, arranjos de sopros e melodias que vão das estruturas inexatas de Brian Wilson, em Pet Sounds (1967), ao refinamento de Arthur Verocai. O mesmo direcionamento acaba se refletindo na labiríntica Maestranza, onde as guitarras de Pecknold rompem com o acolhedor canto de pássaros que inaugura a canção. Pouco mais de três minutos em que o músico norte-americano resgata parte dos primeiros registros autorais, porém, se permite avançar criativamente, esbarrando em meio a bloco de ruídos e texturas granuladas. A própria Cradling Mother, Cradling Woman, com suas orquestrações sublimes, rapidamente se transforma em uma corredeira de arranjos e vozes marcadas pela desconstrução dos elementos.

Mesmo os versos detalhados em cada canção incorporam parte dessa dualidade. Porções melancólicas que antecedem momentos de maior euforia. Parte expressiva desse resultado vem de uma experiência de quase morte vivida por Pecknold enquanto surfava nas praias de Los Angeles. “Eu fui pego por uma correnteza e estava muito longe da areia. Eu realmente pensei que fosse me afogar nadando de volta e tive que lutar muito para voltar à costa. Depois dessa experiência, apenas o alívio que senti por estar na praia, pensei, o próximo álbum se chama ‘Shore’ [em português, “Costa”] e será esse alívio, essa vibração de estar vivo. Aquilo se tornou um quadro que era imutável, muito embora a música ou as letras ainda não estivessem lá”, contou em entrevista à Exclaim.

Claro que essa busca por novas possibilidades em nenhum momento faz de Shore uma obra difícil ser absorvida. Pelo contrário, a grande beleza do álbum está justamente na capacidade de Pecknold em alternar entre instantes de maior experimentação e músicas deliciosamente acessíveis. São faixas como Sunblind, Can I Believe You e For a Week or Two em que o cantor evidencia a capacidade de se relacionar com uma parcela ainda maior do público. Perfeita representação desse resultado acontece em A Long Way Past the Past, canção em que utiliza de memórias de um passado ainda recente como importante componente de diálogo com o ouvinte. “Mas eu não tenho opção / Eu herdei isso e estou superado … Eu estarei melhor em um ano ou em dois“, reflete. São versos sempre detalhistas e sensíveis, estrutura que se conecta diretamente à fina base instrumental adornada por camadas de guitarras, sopros e vozes em coro.

Maior a cada nova audição, Shore parte de um exercício pessoal de Pecknold para se transformar em um precioso componente de diálogo com diferentes representantes da cena norte-americana. São nomes como Christopher Bear e Daniel Rossen, do Grizzly Bear, Kevin Morby, Homer Steinweiss, Joshua Jaeger e até as filhas de Hamilton Leithauser, Georgiana e Frederika, donas das vozes em Wading in Waist-High Water e Young Man’s Game. Um seleto time de instrumentistas, cantores e parceiros de longa data que movimentam todo o processo de composição do trabalho, como se cada fragmento revelasse ao público um universo de pequenos detalhes. Canções que preservam a essência do Fleet Foxes, porém, partindo de um novo e necessário direcionamento estético.