"Crush"

Ano: 2019
Selo: Ninja Tune
Gênero: Eletrônica, Música Ambiente, IDM
Para quem gosta de: Four Tet e Aphex Twin
Ouça: LesAlpx, Sea-Watch e Anasickmodular
Nota: 8.5

Crítica | Floating Points: “Crush”

A lenta desconstrução da introdutória Falaise, faixa de abertura de Crush (2019, Ninja Tune), funciona como um indicativo claro do som produzido por Sam Shepherd para o segundo e mais recente álbum de estúdio do Floating Points. São camadas instrumentais tratadas de forma irregular, como se o produtor britânico brincasse com a constante perversão das melodias e temas eletrônicos. Frações conceituais que vão da música erudita ao experimentalismo cósmico da década de 1970, proposta que faz do presente álbum uma fina continuação do material entregue pelo artista há quatro anos, durante o lançamento do também curioso Elaenia (2015).

A principal diferença em relação ao material entregue no disco anterior está na forma como Shepherd alterna entre instantes de maior euforia e músicas puramente contemplativas. Vem justamente desse primeiro grupo a crescente LesAlpx. São pouco menos de cinco minutos em que o produtor britânico vai da criativa desconstrução das batidas e temas eletrônicos, como um diálogo com a obra de Aphex Twin, à minúcia na inserção de melodias atmosféricas e texturas sempre detalhistas, estrutura que naturalmente aponta para a obra de conterrâneos como Four Tet.

O mesmo direcionamento acaba se refletindo na dobradinha composta por Last Bloom e Anasickmodular, logo na abertura do disco. Enquanto a primeira composição parece pronta para as pistas, como uma materialização do som explorado nas apresentações ao vivo de Floating Points, na canção seguinte, Shepherd parece testar os próprios limites. São variações instrumentais, ruídos e batidas tortas que parecem apontar para a cena eletrônica dos anos 1990, proposta que naturalmente dialoga com a obra de veteranos do gênero, como Autechre e o já citado Aphex Twin. Instantes de profundo delírio, como uma interpretação frenética do material entregue no ao vivo Reflections – Mojave Desert (2017).

Quando perverte essa estrutura, Shepherd entrega ao público uma solução de faixas marcadas pelo minimalismo dos elementos e propositada fuga das pistas. É o caso de Requiem for CS70 and Strings. Marcada pela leveza dos arranjos e temas orquestrais, a canção costura passado e presente de forma sempre detalhista, como uma interpretação futurística de um som medieval. O mesmo direcionamento atmosférico acaba se refletindo mais à frente, em Sea-Watch, música que parece saída da trilha sonora de um filme, efeito do delicado uso dos pianos e melodias etéreas, como uma interpretação particular das ambientações de Brian Eno.

Interessante perceber na sequência de fechamento do disco, formada pelas duas variações de Apoptose, um delicado ponto de equilíbrio entre esses dois universos conceituais. Enquanto a base de cada canção parece apontar para o lado mais atmosférico da obra, revelando a utilização de sintetizadores climáticos e melodias, nas batidas, Shepherd brinca com a propositada desconstrução dos elementos. São ruídos e variações sujas, proposta que naturalmente parece apontar para os trabalhos de Thom Yorke em carreira solo, porém, preservando a identidade criativa de Floating Points.

Tamanho esmero na composição do álbum faz de Crush o registro mais detalhista já produzido por Shepherd. Enquanto Elaenia indicava a imagem de um artista curioso, como se o produtor britânico testasse diferentes possibilidades dentro de estúdio, com o presente álbum, Floating Points sabe exatamente que direção seguir. São pouco mais de 40 minutos em que o artista vai do uso de temas atmosféricos (Requiem for CS70 and Strings, Sea-Watch) à produção de faixas puramente dançantes (Last Bloom, LesAplx), versatilidade que tinge com parcial ineditismo cada nova audição do trabalho.



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