"Promises"

Ano: 2021
Selo: Luaka Bop
Gênero: Jazz, Eletrônica, Música Ambiente
Para quem gosta de: Sun Ra e Jon Hopkins
Ouça: Movement 6, Movement 4 e Movement 7
Nota: 9.0

Crítica | Floating Points, Pharoah Sanders & The London Symphony Orchestra: “Promises”

Quem há tempos acompanha o trabalho de Sam Shepherd, o Floating Points, sabe do fascínio do produtor britânico pela obra de veteranos do jazz e da música produzida nos campos mais remotos do planeta. Mesmo conhecido pelas composições e temas dançantes, como em Crush (2019), e colaborações com nomes importantes da cena eletrônica, caso de Caribou e Four Tet, foi em busca desses momentos de maior experimentação, tratamento evidente em Marhaba (2015) e Elaenia (2015), que o artista inglês deu vida a algumas de suas principais criações. São registros marcados pela colorida colagem de ritmos e minucioso processo de pesquisa, mas que hoje se revelam como meros esboços quando próximos do material cuidadosamente apresentado em Promises (2021, Luaka Bop).

Registro mais ambicioso da carreira de Shepherd, Promises preserva a essência do produtor britânico, principalmente quando lembramos dos temas atmosféricos de Reflections – Mojave Desert (2017), porém, estabelece na sonoridade cósmica de Pharoah Sanders, principal parceiro de composição, um importante elemento de ruptura e busca por novas possibilidades. Conhecido pelo trabalho como colaborador de John e Alice Coltrane, Sun Ra e Don Cherry, o músico de 80 anos passou as últimas cinco décadas imerso na produção de obras essencialmente transcendentais e contemplativas. São preciosidades como Ascension (1966) e Journey in Satchidananda (1970) em que não apenas interfere criativamente, como incorpora uma série de componentes que seriam melhor explorados no jazz espiritual que embala os autorais Karma (1969) e Thembi (1971).

É partindo justamente desse mesmo direcionamento mágico que a dupla, acompanhada por 29 membros da Orquestra Sinfônica de Londres, apresenta ao público uma extensa composição que se divide em nove movimentos específicos. São delicadas camadas instrumentais que surgem e desaparecem durante toda a execução do álbum, como ambientações sutis que partem dos teclados e frações eletrônicas incorporadas pelo produtor britânico, mas que crescem no canto solitário do saxofone de Sanders e arranjos borbulhantes que ocupam toda a execução do registro. Assim como em Elaenia, Shepherd revela ao público um disco que exige ser desvendado pelo ouvinte, mergulhando na formação de um repertório que parte da leveza dos elementos como estímulo para um material conceitualmente imenso.

E isso se reflete com maior naturalidade logo nos primeiros minutos do disco, em Movement 1. Pouco mais de seis minutos em que a dupla apresenta todos os elementos que serão explorados de maneira ainda mais detalhista ao longo da obra. Do movimento cíclico dos pianos, passando pelo som ruidoso que escapa das teclas do saxofone, tudo se transforma em um importante componente criativo para o fortalecimento do trabalho. É como se cada fragmento, mesmo o mais discreto, servisse de estímulo para o material entregue na canção seguinte, reforçando a minúcia e completo domínio de Shepherd durante toda a execução do álbum. São orquestrações sublimes, texturas e vozes tratadas como instrumentos que se entrelaçam em uma nuvem de sons e captações celestiais.

Tamanha aproximação entre as faixas naturalmente exige uma audição atenta e continua por parte do ouvinte, mas isso não quer dizer que você não possa se deliciar com diversas composições isoladas ao longo da obra. É o caso de Movement 6. Ponto de maior comoção do trabalho, a música de quase nove minutos estabelece um ponto de equilíbrio entre as ambientações de Floating Points, os temas jazzísticos de Sanders e a fina tapeçaria instrumental que cobra toda a superfície da canção. A própria Movement 7, minutos à frente, incorpora parte da mesma estrutura, porém, cresce no completo experimentalismo do coletivo de artistas. São camadas e mais camadas de sintetizadores, orquestrações e sopros que resgatam o que há de mais psicodélico e louco na obra do saxofonista.

Entregue ao público em um momento de importante redescoberta da obra de Sanders, com diversos registros ao vivo e disco originais do jazzista sendo relançados, Promises nasce como um documento vivo. Ainda que parta de uma linguagem típica das criações de Floating Points, flutuando em meio a ambientações e temas atmosféricos, Shepherd cria um espaço onde o saxofonista estadunidense passeia com liberdade durante toda a execução do trabalho. Mesmo o time de instrumentistas que acompanha a dupla ocupa uma posição de destaque a cada novo movimento do registro. O resultado desse processo está na entrega de um álbum que faz de cada elemento um objeto precioso, como uma soma das ideias, histórias e referências particulares de cada realizador.

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