"A Emocionante Fraqueza Dos Fortes"

Ano: 2020
Selo: Lab 344
Gênero: MPB, Art Pop, Pop Rock
Para quem gosta de: Wado, Karin Buhr e Josyara
Ouça: Triângulos e Só De Amor
Nota: 7.5

Crítica | Flora: “A Emocionante Fraqueza Dos Fortes”

A Emocionante Fraqueza Dos Fortes (2020, Lab 344) é um disco que começa pequeno, cresce e, sem que você perceba, invade sua mente. Primeiro álbum de estúdio da cantora e compositora alagoana Flora, o registro que conta com produção de Wado, diz a que veio logo nos primeiros minutos, em América. São camadas de sintetizadores e melodias cósmicas que avançam à medida em que a letra política da canção ganha forma, cercando e confortando o ouvinte. Um turbilhão sentimental e poético, mas que em nenhum momento ultrapassa um limite imaginário, posicionando o fino repertório entregue pela artista dentro de um mesmo território criativo.

Exemplo disso acontece na faixa seguinte do disco, Só de Amor. Enquanto os versos da canção refletem o romantismo agridoce da artista, guitarras e batidas calculadas surgem como um complemento à voz cirúrgica de Flora. “Me sinto tão só / Só de Amor / Eu nunca sinto dor / Só de Amor“, confessa. São frações poéticas que se permitem guiar pela completa vulnerabilidade do eu lírico, conceito também explícito em Dança do Ente. “Me expus ao Sol escaldante / Me viste nua / Sem nuances“, canta, evocando a mesma poesia entristecida de nomes importantes como Céu e Karina Buhr.

Nada que se compare ao material entregue na delicada Triângulos. Uma das primeiras composições do disco a serem apresentadas ao público, a faixa parte do minimalismo dos arranjos como estímulo para a formação dos versos, poderosos, ainda que intimistas. “O coração a gente vê depois / Se você tiver vontade eu quero“, repete de forma cíclica, como um mantra. É como se cada elemento fosse revelado em uma medida própria de tempo, sem pressa, estrutura que faz lembrar dos trabalhos do próprio Wado, vide o material entregue no também sensível Vazio Tropical (2013).

Nesse sentido, a regravação de Sua Estupidez, uma das grandes criações de Roberto Carlos, não apenas deixa de pertencer ao músico capixaba, como se revela parte substancial do álbum. Única composição produzida por Dinho Zampier, a faixa ganha forma em meio a sintetizadores etéreos e batidas econômicas, como um diálogo breve com a obra de estrangeiros como Beach House. O mesmo direcionamento acaba se refletindo na canção seguinte, Leve, música regida pela voz instrumental da alagoana, porém, completa pelo uso de pianos e guitarras espaçadas, sempre discretas.

Com a chegada de Revés, sétima composição do disco, a passagem para um novo território criativo. Com ares de música esquecida dos anos 1970, a canção segue em um misto de rock psicodélico e brega, como um encontro entre Tame Impala e Odair José. É justamente esse olhar para o passado que define o registro seguinte, O Banquete, composição que rompe com o minimalismo do restante da obra para investir em um conjunto de novos instrumentos. Mesmo a faixa-título do álbum, com suas texturas e batidas eletrônicas, em nenhum momento perde o caráter orgânico que embala os minutos finais do trabalho, reforçando a versatilidade de Flora em estúdio.

Interessante perceber em Raízes, faixa de encerramento do disco, um acumulo de todas essas experiências. Inaugurada pelo canto limpo da artista, a canção rapidamente se transforma em uma colorida sobreposição de ideias e ritmos que passeiam por diferentes campos da música brasileira. Pouco menos de quatro minutos em que a alagoana vai do regionalismo ao pop de maneira deliciosamente acessível, costurando temas e referências que mudam de direção a todo instante. Um misto de sequência e fina reinterpretação de tudo aquilo que embala a experiência do ouvinte desde o que álbum tem início.