"A Hero's Death"

Ano: 2020
Selo: Partisan Records
Gênero: Pós-Punk, Art Rock, Rock Alternativo
Para quem gosta de: Idles, Iceage e Shame
Ouça: A Hero's Death e Live Is The Main Thing
Nota: 8.5

Crítica | Fontaines D.C.: “A Hero’s Death”

Um ano, duas obras completamente distintas. Em um intervalo de poucos meses após o lançamento do primeiro álbum de estúdio, o elogiado Dogrel (2019), os músicos Grian Chatten (voz), Conor Deegan III (baixo), Carlos O’Connell (guitarra), Conor Curley (guitarra) e Tom Coll (bateria) estão de volta com um novo registro de inéditas do Fontaines D.C.: A Hero’s Death (2020, Partisan). Livre de urgência e crueza explícita em faixas como Big e Hurricane Laughter, o trabalho produzido por Dan Carey (Franz Ferdinand, Bat For Lashes), parceiro desde o disco anterior, mostra a busca do quinteto de Dublin por uma sonoridade cada vez mais atmosférica e densa, como um complemento ao lirismo existencialista que serve de sustento aos versos.

Eu não pertenço a ninguém / Eu não quero pertencer a ninguém“, canta Chatten na introdutória I Don’t Belong, música que reflete a sensação de deslocamento do eu lírico, apontando a direção seguida pelo quinteto até o último instante da obra. São versos sempre introspectivos, sombrios, como se o músico irlandês deixasse de cantar sobre o cenário urbano que o cerca, vide as paisagens descritivas e referências à cidade de Dublin no primeiro álbum de estúdio, para refletir sobre as próprias inquietações e conflitos particulares. Um misto de dor e permanente busca por libertação.

O resultado desse processo está na entrega de músicas como a atmosférica No, faixa de encerramento do disco, e Oh Such A Spring. São canções em que a banda irlandesa perverte completamente a essência do disco anterior, porém, mantém firme consistência dos versos e cuidado na composição dos arranjos. “Nós dois / Temos muitas coisas a dizer, não / Não tenha tempo suficiente para brincadeira, tente / Operando mais rápido“, cresce a letra de You Said, música que alcança um equilíbrio entre as guitarras soturnas de Turn on the Bright Lights (2002), bem-sucedido debute do Interpol, e a base ruidosa detalhada em parte do repertório de Dogrel.

Interessante notar que mesmo marcado por novas possibilidades, A Hero’s Death carrega uma série de músicas que preservam a crueza do disco anterior. É o caso da já conhecida Televised Mind, terceira faixa do álbum. São pouco mais de quatro minutos em que a bateria de Coll se encontra com o baixo de Deegan III para ditar os rumos das guitarras e camadas de distorção assinadas por Curley e O’Connell. Um som ruidoso, forte, proposta que se completa pela poesia cíclica de Chatten, como um mantra que parece invadir a mente do ouvinte, estrutura que volta a se repetir em canções como Living In America.

A principal diferença em relação ao álbum anterior está na permanente sobreposição de ideias e ritmos que ampliam a identidade criativa do trabalho. Exemplo disso está na própria faixa-título do do disco, canção que preserva a essência soturna da banda, porém, utiliza de vozes cantaroláveis e elementos típicos do doo-wop como um precioso componente de transformação. Instantes em que o grupo irlandês vai de The Clash ao The Beach Boys em um intervalo de poucos minutos. Mesmo Love is the Main Thing, logo na abertura do disco, sustenta no andamento peculiar da bateria o indicativo de um novo direcionamento estético.

Princípio de uma nova fase, A Hero’s Death traz de volta uma série de elementos que apresentaram o Fontaines D.C. no último ano, porém, se permite avançar criativamente. Entre ecos de veteranos do pós-punk, como Nick Cave and The Bad Seeds e The Pogues, sobrevive no lirismo melancólico de Chatten e na minuciosa composição dos arranjos a consolidação de uma linguagem e identidade própria do quinteto de Dublin. Composições que preservam e pervertem a essência criativa da banda, proposta que faz do presente álbum um novo e bem-sucedido capítulo na carreira do grupo irlandês.