"Sixteen Oceans"

Ano: 2020
Selo: Text
Gênero: Eletrônica, IDM, Experimental
Para quem gosta de: Floating Points e Caribou
Ouça: Teenage Birdsong e Baby
Nota: 8.1

Crítica | Four Tet: “Sixteen Oceans”

Desde o início da carreira, a grande beleza da obra de Kieran Hebden sempre esteve na capacidade do produtor em investir na composição de faixas puramente dançantes, porém, marcadas pelo maior refinamento estético. Exemplo disso está em toda a sequência de músicas apresentadas desde o fim da década de 1990, como nas ambientações de Pause (2001) e Rounds (2003), mas, principalmente, nas texturas, inserções pontuais e vozes tratadas como instrumentos em There Is Love in You (2010), registro que não apenas revelou algumas das criações mais delicadas do britânico, caso de Angel Echoes e Love Cry, como transportou o som de Four Tet para um novo território criativo.

Curioso perceber em Sixteen Oceans (2020, Text), décimo e mais recente álbum de estúdio do produtor britânico, uma clara continuação do material entregue em There Is Love in You. Do uso destacado dos sintetizadores, passando pela fragmentação das vozes, batidas e captações orgânicas, poucas vezes antes um registro apresentado pelo artista pareceu refletir tamanho esmero. São camadas instrumentais, ruídos e inserções pontuais que parecem feita para serem desvendadas pelo ouvinte, cuidado que se reflete até a econômica Mama Teaches Sanskrit.

Não por acaso, Hebden fez justamente de Teenage Birdsong a primeira composição do disco a ser apresentada ao público. São pouco mais de três minutos em que o produtor parece brincar com os detalhes, jogando com a interpretação do ouvinte durante toda a execução da faixa. Camadas cristalinas de sintetizadores, ruídos e captações atmosféricas que surgem e desaparecem durante toda a montagem da faixa. Instantes em que Four Tet preserva o mesmo labirinto sonoro detalhado no antecessor New Energy (2017), porém, se permite dialogar com a obra de contemporâneos como Richard D. James (Aphex Twin) e William Bevan (Burial), esse último, parceiro de longa data do produtor inglês.

De fato, não são poucos os momentos em Sixteen Oceans que Hebden revela uma interpretação ensolarada das criações soturnas de Bevan. Exemplo disso está em 4T Recordings. Do uso atmosférico das vozes, lembrando o trabalho de Burial em Endorphin e Ghost Hardware, passando pela delicada sobreposição dos sintetizadores, tudo soa como uma extensão de Four Tet para a obra do conterrâneo inglês. A diferença está nos minutos finais da faixa, quando o ouvinte é convidado a mergulhar em um ambiente de reverberações florestais, bips e harmonias aprazíveis.

É esse mesmo direcionamento acolhedor que orienta a experiência do público durante toda a execução da obra. São criações como Romantics, Love Salad e Green, com suas ambientações e sons de pássaros, que transportam o ouvinte para dentro de um mundo mágico, como um refúgio esverdeado em meio ao caos urbano. Mesmo nos momentos em que mais dialoga com o uso de temas sintéticos, como na introdutória School e Something in the Sadness, Hebden em nenhum momento se distancia da inserção de melodias harmoniosas que parecem cercar e confortar o ouvinte. Um exercício minucioso que se completa pela inserção de ruídos borbulhantes, como em Bubbles at Overlook 25th March 2019, e sons da natureza, caso da curtinha ISTM.

Completo pela presença de Ellie Goulding, nas vozes recortadas de Baby, Sixteen Oceans evidencia o domínio criativo de Hebden durante toda a execução da obra. Do momento em que tem início, em School, passando pela entrega de preciosidades como Teenage Birdsong, Romantics e a pulsante Insect Near Piha Beach, cada composição assinada pelo produtor britânico passeia em meio a camadas de melodias detalhistas, vozes e ambientações ocasionais, sempre precisas. Um convite a se perder em um cenário marcado pelas cores, proposta que faz do presente álbum um novo e delicado acerto na extensa discografia de Four Tet.