"ft"

Ano: 2019
Selo: Elemess
Gênero: Pop, R&B, Brega
Para quem gosta de: MC Tha, Duda Beat e Rosa Neon
Ouça: Céu Azul, Sem V.O.C.E e Say Goodbye
Nota: 8.3

Crítica | “ft”, Jaloo

Seja nos momentos de maior melancolia ou doce celebração, o amor foi feito para ser compartilhado. E Jaloo parece entender bem isso. Não por acaso, o cantor, compositor e produtor paraense decidiu se cercar de colaboradores para a produção do segundo e mais recente álbum de estúdio da carreira, ft (2019, Elemess). Sequência ao elogiado #1 (2015), obra que revelou ao público faixas como Insight, A Cidade e Chuva, o novo disco utiliza de sentimentos e memórias de um passado ainda recente como o principal componente criativo para a formação dos versos. Instantes de evidente carência sentimental e busca por um novo relacionamento que se completa pela interferência direta de um time seleto de instrumentistas, produtores e vozes da nossa música.

Concebido em um intervalo de mais de um ano, o trabalho que teve parte expressiva de suas faixas reveladas nos últimos meses, ganha ainda mais destaque quando observado em unidade. Do momento em que tem início, em Dom, bem-sucedida colaboração com Karol Conká e Pedrowl, até alcançar a atmosférica Último Recado, parceria com Charles Tixier (Luiza Lian) que adapta a canção de mesmo nome lançada no primeiro disco de MC Tha, Rito de Passá (2019), tudo se projeta como parte de um mesmo universo conceitual. Canções que vão do isolamento à exaltação romântica de um mesmo personagem.

Síntese desse lirismo agridoce se revela com naturalidade na delicada Sem V.O.C.E, quinta faixa do disco. Se nos minutos iniciais o músico paraense sufoca pela dor de um relacionamento fracassado (“Amanhecendo no vazio / Acordo sem você / E as fodas tão vazias / Durmo só com brisa / Eu tô dentro da minha cabeça“), com a chegada de Céu, na segunda metade da canção, o direcionamento passa a ser outro. “Eu tô tão fora da minha cabeça, vivendo às cegas / Acordei e vi o melhor / Que esquecer é o que nos resta“, canta em um exercício de evidente liberação sentimental, estrutura que se completa pela rica base melódica da composição, produto da breve interferência de Diogo Strausz (Alice Caymmi, Thiago Pethit).



Partindo desse conceito, Jaloo se divide entre canções consumidas pela saudade, como em Q.S.A, encontro com Gaby Amarantos (“E se um dia eu te ver com alguém / Meu bem, nunca esqueça de mim“); instantes de evidente tristeza, como na parceria com Nave, em Dói D+ (“E minto e finjo que nunca senti tanto amor / Eu minto que não, mas eu nunca senti tanta dor“), e faixas marcadas pelo distanciamento entre os indivíduos, caso de Cira, Regina e Nana, com Lucas Santtana (“Agora o meu coração toca no vazio“), e a amarga Say Goodbye, com Badsista (“Você ficou tão real / Era tão especial / Eu viciei em você / Eu viciei na tristeza / Só pra não te perder“). Um exercício de profunda entrega emocional, como uma delicada continuação do material entregue no disco anterior.

Dos poucos momentos em que perverte essa estrutura, como em Céu Azul, Jaloo se debruça em questões políticas, porém, preservando a atmosfera pop e frescor que embala o restante da obra. “Vou avisar aos cachorros da rua / Que a minha ferida crua é melhor não lamber / Vou avisar aos cachorros da rua / Que pro povo pobre, a vingança pode ser mel e prazer“, canta enquanto divide os versos com MC Tha, parceira desde o último álbum de estúdio. Surgem ainda faixas como a divertida Movimentá, parceria com Lia Clark e Pedrowl e uma deliciosa fuga do restante da obra, indicativo da capacidade do artista em dialogar com uma parcela maior do público.

Menos hermético em relação ao material entregue no disco anterior, ft mostra a capacidade do produtor paraense em transitar por entre gêneros sem necessariamente fazer disso o estímulo para uma obra desequilibrada. São variações instrumentais que vão do regionalismo, como na versão para Atabaque Chora, d’Os Tincoãs, e Eu Te Amei (Amo!), com Dona Onete e Manoel Cordeiro, ao pop tropical de Sem V.O.C.E e Dom. Versatilidade que disfarça a parcial ausência de ineditismo e efeito surpresa do álbum, reflexo da série músicas já apresentadas pelo artista nos últimos meses, mas que naturalmente consolida Jaloo como um dos grandes nomes do pop brasileiro.



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