"Agüita"

Ano: 2020
Selo: Jagjaguwar / Stones Throw
Gênero: Pop Rock, R&B, Funk
Para quem gosta de: Omar Apollo, Cuco e Dirty Projectors
Ouça: With A Smile, Bloom e Someone
Nota: 7.5

Crítica | Gabriel Garzón-Montano: “Agüita”

Filho de mãe francesa e pai colombiano, Gabriel Garzón-Montano sempre encontrou na criativa colagem de ideias e referências vindas de diferentes campos da música a base para os próprios inventos. E isso se reflete com naturalidade no primeiro álbum de estúdio do artista, Jardín (2017), trabalho que transita por entre ritmos de forma sempre detalhista e autoral, estímulo para a composição de faixas como Sour Mango, The Game e Crawl. Três anos após o lançamento do elogiado projeto, o cantor e compositor nova-iorquino está de volta com um novo e também diverso registro de inéditas, Agüita (2020, Jagjaguwar / Stones Throw).

Assim com o registro que o antecede, o álbum produzido, gravado e tocado quase que integralmente pelo multi-instrumentista faz de cada composição um objeto isolado. São faixas dotadas de uma sonoridade e linguagem sempre específica, fazendo desse criativo conjunto de ideias contrastantes o principal componente criativo para o fortalecimento da obra. Instantes em que Garzón-Montano vai do pop empoeirado da década de 1990 ao R&B dos anos 2010, proposta que se reflete até a faixa de encerramento do disco, Blue Dot.

A principal diferença em relação ao material entregue no álbum anterior está no maior refinamento dos arranjos e temas instrumentais. Para além da base calculada de cada composição, Garzón-Montano estabelece pequenos respiros que ser permitem completar pelo violoncelo da compositora Kristine Kruta, a harpa cristalina de Mélanie Genin e toda uma base orquestral assumida por diferentes convidados. Exemplo disso acontece logo na sequência de abertura do disco, em Tombs e With a Smile. Canções que ampliam de forma ainda mais sensível tudo aquilo que o músico havia testado durante o lançamento de Jardín.

Entretanto, a real beleza do trabalho não está nesse novo tratamento dado aos arranjos, mas na forma como o artista estreita a relação com o uso de ritmos latinos e outros elementos periféricos. É o caso do reggaeton, em Muñeca, e do trap que toma conta da própria faixa-título do disco. Instantes em que o músico nova-iorquino preserva a essência do registro anterior, porém, ampliando os próprios horizontes criativos, estrutura que se reflete em outros momentos ao longo da obra. São pequenas variações rítmicas, quebras e sobreposições estéticas que mudam de direção a todo momento.

Uma vez dentro desse território tão diverso, Garzón-Montano aproveita para confessar algumas de suas principais referências criativas. Prova disso acontece em Someone. Uma das primeiras composições do disco a serem apresentadas ao público, a canção vai do funk ao R&B em uma linguagem que evoca o trabalho de veteranos como Prince e Lenny Kravitz. São diferentes décadas e tendências que se entrelaçam em uma combinação talvez irregular nas mãos de outros artistas, mas que funciona no desenho torto que caracteriza a obra do compositor estadunidense.

Não por acaso, Agüita é uma obra que exige ser revisitada a fim de revelar suas nuances, texturas e incontáveis camadas instrumentais. O mais interessante talvez seja perceber a forma como Garzón-Montano parte sempre de uma base reducionista, por vezes atmosférica, fazendo de cada mínimo acréscimo um elemento de destaque. Guitarras, batidas e vozes que se movimentam de forma a potencializar os sentimentos detalhados pelo artista, como se cada elemento apresentado ao longo do álbum tivesse uma função específica, indicativo do completo esmero e domínio do cantor dentro de estúdio.