"Nenhuma Dor"

Ano: 2021
Selo: Biscoito Fino
Gênero: MPB, Samba, Pop Rock
Para quem gosta de: Caetano Veloso e Gilberto Gil
Ouça: Avarandado e Nenhuma Dor
Nota: 7.5

Crítica | Gal Costa: “Nenhuma Dor”

Com título inspirado no poema homônimo do poeta piauiense Torquato Neto (1944 – 1972), Nenhuma Dor (2021, Biscoito Fino), novo álbum de Gal Costa, nasce como uma celebração à obra da cantora e compositora baiana. Inicialmente batizado de “Gal 75” e pensado como parte das comemorações ao aniversário de 75 anos da artista, o registro passeia por mais de cinco décadas de carreira em uma seleção de duetos que incorporam diferentes fases e abordagens criativas da soteropolitana. Um misto de passado e presente que amplia a essência colaborativa também impressa nos últimos trabalhos de estúdio, Estratosférica (2015) e A Pele Do Futuro (2018).

E assim como os registros que o antecedem, inaugurados pela crueza de Sem Medo Nem Esperança e os temas dançantes de Sublime, Nenhuma Dor diz a que veio logo nos primeiros minutos, na adaptação ensolarada de Avarandado. Acompanhada de Rodrigo Amarante, que assume a produção e parte expressiva dos instrumentos, a cantora não apenas garante novo tratamento à faixa, como revela uma canção que cresce substancialmente em relação ao material entregue no primeiro trabalho de estúdio da artista, Domingo (1966), obra assinada em parceria com Caetano Veloso.

O mesmo refinamento e evidente força criativa acaba se refletindo em outras composições do registro. É o caso de Baby. Originalmente gravada como parte do homônimo álbum de 1969 e revisitada pela cantora ao longo dos anos, a canção estabelece na interferência direta de Tim Bernardes o estímulo para um dos momentos de maior comoção do disco. Partindo de uma base minimalista, íntima do som produzido pelo músico paulistano no primeiro trabalho em carreira solo, Recomeçar (2017), a faixa cresce à medida em que as vozes dos dois artistas se entrelaçam, valorizando os arranjos de cordas assinados pelo compositor Felipe Pacheco Ventura.

Parceiro desde a produção de A Pele do Futuro, Ventura é justamente quem conecta o fino repertório de Nenhuma Dor. Presente durante toda a execução da obra, o multi-instrumentista se reveza na fina tapeçaria instrumental que cobre a superfície do registro. São orquestrações sublimes e instantes de maior euforia, conceito reforçado com naturalidade na sequência de encerramento do disco. De um lado, a crescente interpretação de Negro Amor, música completa pela participação do uruguaio Jorge Drexler, no outro, a maciez que embala a faixa-título do álbum, composição que se abre para a chegada de Zeca Veloso.

Nesse cenário marcado pela delicadeza dos arranjos, surgem ainda preciosidades como a adaptação de Meu Bem, Meu Mal, música completa pela participação do carioca Zé Ibarra, e Pois é, criação de essência dramática que se abre para a chegada do português António Azambujo. Já Paula e Bebeto, eternizada na voz de Milton Nascimento e regravada pela cantora no álbum Água Viva (1978), chama muito mais a atenção pela entrega de Gal e arranjos de Ventura do que pela presença de Criolo, contido quando próximo do material apresentado em Existe Amor (2020), recente parceria com o próprio Bituca.

Quem também parece deslocado é o capixaba Silva, músico que já havia colaborado com a artista em A Pele do Futuro, mas que pouco contribui para adaptação de Só Louco, de Dorival Caymmi (1914 – 2008). Mesmo Rubel, parceiro na recente e bem-sucedida interpretação ao vivo de Baby, surge encolhido em Coração Vagabundo, música dominada pelo canto da baiana. De fato, pertence exclusivamente à cantora alguns dos momentos mais significativos da obra. Da fluidez explícita na voz da já citada Paula e Bebeto, passando pela doce melancolia de Juventude Transviada, encontro com Seu Jorge, há tempos Gal não demonstrava tamanha entrega em seus trabalhos, fazendo valer o direcionamento comemorativo que orienta o disco.

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