"Gallipoli"

Ano: 2019
Selo: 4AD
Gênero: Indie Pop, Alternativa
Para quem gosta de: Andrew Bird e Sufjan Stevens
Ouça: Landslide e Gallipoli
Nota: 7.0

Crítica: “Gallipoli”, Beirut

Do momento em que tem início, em When I Die, até alcançar a derradeira Fin, cada elemento de Gallipoli (2019, 4AD), quinto álbum de estúdio do Beirut, parece replicar a atmosfera detalhada nos inaugurais Gulag Orkestar (2006) e The Flying Club Cup (2007). Composições adornadas pela inserção de metais e instrumentos de sopro, criativa colagem de ritmos e declarado diálogo do vocalista e líder Zach Condon com diferentes elementos da música europeia. Um misto de passado e presente que pouco evolui, mas que inevitavelmente acaba convencendo o ouvinte.

Sequência ao mediano No No No (2015), obra em que Condon decidiu mergulhar na composição de um material ainda mais acessível, flertando de maneira declarada com a música pop, o novo álbum encontra no parcial recolhimento dos versos e estruturas melódicas a passagem para um trabalho naturalmente introspectivo, melancólico. Perceba como a voz sóbria do músico norte-americano passeia de forma solitária pelo interior do disco, livre dos habituais coros de vozes e sobreposições que pareciam garantir maior destaque aos antigos trabalhos.

Parte dessa estrutura vem da forma como o próprio disco foi concebido, em meio a viagens de Condon pelo mediterrâneo e noites solitárias em quartos de hotel, principalmente em território italiano. De fato, durante toda a execução da obra, o compositor norte-americano parece beber de elementos da música local, direcionamento que se reflete com naturalidade na atmosfera folclórica que cresce na empoeirada faixa-título do disco, ou mesmo em momentos estratégicos da obra, caso do pop nostálgico de I Giardini, canção que parece apontar para algum lugar nos anos 1980.

Mesmo inspirado pela utilização de conceitos bastante específicos, Gallipoli se revela ao público como uma obra essencialmente curiosa. Exemplo disso está em Light In The Atoll, música que sutilmente se distancia do restante da obra para provar de novas sonoridades. São variações jazzísticas e ambientações que parecem saídas de um filme romântico dos anos 1950. Em Corfu, sétima faixa do disco, batidas e pianos fortes que visitam a mesma atmosfera detalhada por King Krule em The Ooz (2017). A própria faixa de encerramento do disco, Fin, parece flutuar em meio a sintetizadores e ambientações etéreas, como um sutil resgate do material entregue pelo músico em March of the Zapotec/Holland EP (2009).

O mais curioso talvez seja perceber a forma como Condon resgata uma série de elementos originalmente testados no antecessor No No No de forma transformada. É o caso de Landslide, música que ganha forma em meio a sintetizadores e melodias ensolaradas. Em Family Curse, nona faixa do disco, batidas eletrônicas que se abrem para a inserção de metais e vozes abafadas, quase atmosféricas. O mesmo detalhamento eletrônico acaba se repetindo em We Never Lived Here, composição que vai do som cósmico dos anos 1970 ao refinamento melódico de Jens Lekman em Night Falls Over Kortedala (2007).

Com base nessa estrutura versátil, Gallipoli se revela ao público como o trabalho mais completo de Zach Condon desde o ápice criativo em The Flying Club Cup. São composições que preservam a essência dos antigos registros do Beirut, porém, provando de novas possibilidades e ritmos dentro de estúdio. Entre versos marcados pela melancolia e introspecção do eu lírico, melodias e fórmulas instrumentais mudam de direção a todo instante, dançando pelo campo das ideias de forma sempre curiosa, sutilmente transformada.



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