"Song Machine, Season One: Strange Timez"

Ano: 2020
Selo: Gorillaz Productions / Parlophone / Warner
Gênero: Pop Rock, Rap, R&B
Para quem gosta de: Beck,
Ouça: Strange Timez, Aries e Momentary Bliss
Nota: 7.5

Crítica | Gorillaz: “Song Machine, Season One: Strange Timez”

Mesmo perto de completar duas décadas de lançamento do primeiro álbum de estúdio do Gorillaz, Damon Albarn mostra que o grupo virtual continua tão relevante quanto na época em que foi montado em parceria com Jamie Hewlett, no final dos anos 1990. Entre instantes de maior desequilíbrio, como no confuso Humanz (2017), se destacam obras marcadas pela criativa sobreposição de ideias, ritmos e colaboradores vindos dos mais variados campos da música. Uma coleção de pequenos acertos que se reflete durante o lançamento do ainda recente The Now Now (2018), mas que ganha ainda mais destaque nas canções de Song Machine, Season One: Strange Timez (2020, Gorillaz Productions / Parlophone / Warner).

Misto de coletânea de inéditas, registro visual e projeto multimídia, o trabalho produzido em parceria entre Albarn e Remi Kabaka Jr. preserva o lado mais acessível da banda fictícia, porém, se permite provar de novas possibilidades dentro de estúdio. São canções que costuram cinco ou mais décadas de referências, revelando desde veteranos da cena inglesa, como Robert Smith, na introdutória faixa-título, até nomes importantes do música pop em sua fase mais recente, caso do rapper Slowthai, na derradeira Momentary Bliss, e St. Vincent, na crescente Chalk Tablet Towers.

São justamente esses pontos de convergência entre passado e presente que garantem ao público alguns dos momentos mais interessantes da obra. Exemplo disso acontece na soturna Aries. Sétima faixa do disco, a canção parece apontar diretamente para produção dos anos 1980, preferência que se reflete não apenas no tratamento dado às guitarras e sintetizadores soturnos que invadem o material, como na presença destacada de Peter Hook (Joy Division, New Order), músico que ainda chega acompanhado pela bateria e percussão minuciosa da conterrânea inglesa Georgia Barnes.

O mesmo cruzamento de ideias, porém, partindo de uma nova abordagem, pode ser percebido em The Pink Phantom. Inaugurada pelas rimas e vozes carregadas de efeitos do rapper norte-americano 6lack, a composição cresce na interpretação deliciosamente dramática de Elton John. São pouco mais de quatro minutos em que Albarn perverte a estrutura festiva que define a obra do Gorillaz para resgatar parte da atmosfera explícita em Everyday Robots (2014), primeiro álbum do vocalista do Blur em carreira solo. A própria Dead Butterflies, minutos à frente, parece seguir o mesmo caminho, mergulhando de cabeça em meio a versos agridoces e sentimentos compartilhados com Kano e Roxani Arias.

Dos poucos momentos em que resgata a essência dos primeiros trabalhos de estúdio do projeto, caso do cultuado Demon Days (2005), Albarn não apenas mantém firme a boa forma, como amplia uma série de conceitos que fizeram do grupo um dos mais queridos dos anos 2000. É o caso da divertida Pac-Man. Completa pela presença do rapper Schoolboy Q, a canção segue em um misto de canto e rima, sem pressa, valorizando cada nota da linha de baixo funkeada, batidas e sintetizadores coloridos. Difícil não lembrar de Dirty Harry, Dare e outras composições dotadas de uma linguagem bastante parecida.

Tamanha riqueza no processo de composição do álbum, tratamento que se reflete mesmo nas edições especiais do disco, garante ao público o disco mais completo do Gorillaz desde o repertório entregue em Plastic Beach (2010). É como se Albarn e seus parceiros de estúdio fossem capazes de alcançar um ponto de equilíbrio entre a sonoridade que tradicionalmente define as criações do grupo e a busca por novas possibilidades criativas. Canções que vão da psicodelia ao pop, do R&B ao uso de experimentações com a música eletrônica, proposta que mantém a atenção do ouvinte em alta até o último segundo do trabalho.