"Miss Anthropocene"

Ano: 2020
Selo: 4AD
Gênero: Art Pop, Eletrônica, Dream Pop
Para quem gosta de: Caroline Polachek e Purity Ring
Ouça: Delete Forever, Violence e 4ÆM
Nota: 8.5

Crítica | Grimes: “Miss Anthropocene”

Passado, presente e futuro se confundem na estranha narrativa de Miss Anthropocene (2020, 4AD). Quinto e mais recente álbum de estúdio de Grimes, o trabalho produzido em um intervalo de quase dois anos encontra na imagem de uma “deusa antropomórfica das mudanças climáticas“ o estímulo para um delicado conjunto de faixas em que “cada composição é tratada como uma personificação diferente da extinção humana“, como resume o texto de lançamento da obra. Frações poéticas que vão do aquecimento global ao panteão grego, da inevitabilidade da morte ao domínio de inteligências artificiais, estrutura que faz do presente disco uma resposta sombria ao material entregue no pop colorido do antecessor Art Angels (2015).

De fato, do momento em que tem início, em So Heavy I Fell Through the Earth, com seus sintetizadores e guitarras carregadas de efeitos, até alcançar o pop etéreo de IDORU, faixa de encerramento do disco, difícil não pensar em Miss Anthropocene como um ponto de equilíbrio entre o propositado exagero do álbum anterior e as melodias celestiais de Visions (2012). Canções que atravessam o experimentalismo eletrônico para flertar com o rock caricato dos anos 2000, principalmente o nu-metal, gênero que tem sido incorporado pela artista canadense desde o último ano, durante a apresentação da turbulenta We Appreciate Power, parceria com HANA.

Perfeita representação desse resultado ecoa com naturalidade na crescente 4ÆM. São pouco mais de quatro minutos em Grimes parte de uma base contida, por vezes íntima de músicas como Nightmusic e Be a Body, para mergulhar em um turbilhão sonoro que parece vindo de algum disco do The Prodigy ou da própria trilha sonora de Matrix (1999). O mesmo direcionamento instável acaba se refletindo mais à frente, em My Name Is Dark, canção que ganha forma aos poucos, como um labirinto sonoro pensado para que ouvinte se perca dentro dele. “Eu nunca confio no governo e rezo para Deus com certeza / Não preciso dormir mais / É para isso que servem os medicamentos“, canta enquanto tudo parece desmoronar musicalmente.

É partindo justamente desse direcionamento instável que Grimes orienta a experiência do ouvinte até o último segundo da obra. Instantes de parcial recolhimento, como na contida New Gods, com suas vozes e guitarras atmosféricas, ou mesmo faixas que se entregam ao pop em uma linguagem deliciosamente estranha, estímulo para a já conhecida Violence. Um ziguezaguear de ideias, ritmos e referências culturais não apenas preserva, como sutilmente amplia tudo aquilo que a cantora tem produzido desde a estreia com Geidi Primes (2010), cuidado evidente mesmo nas canções menos expressivas da obra, caso da morna You’ll Miss Me When I’m Not Around.

Mesmo regido pela incerteza das ideias e criativa colisão de ritmos, interessante perceber em músicas como Delete Forever um dos momentos mais sensíveis e bem-resolvidos da obra. Com uma letra inspirada pela morte do rapper Lil Peep e a crise dos opioides nos Estados Unidos, a canção rompe com a essência apocalíptica do restante da obra para mergulhar em um ambiente marcados pela força dos sentimentos. “Coisas que eu não posso escapar / Ultimamente, eu apenas as transformo em demônios / Voo em direção ao Sol, heroína pra caralho / Ultimamente eu apenas as transforme em razões e desculpas“, canta. Mesmo os arranjos da canção parecem aportar em novas referências criativas, vide o uso de temas acústicos, metais e vozes sempre aprazíveis.

Produto do evidente amadurecimento criativo de Grimes, principalmente na composição dos versos, Miss Anthropocene reflete a capacidade da canadense em dialogar com uma parcela maior do público, mesmo provando de novas possibilidades, temas políticos e ambientações soturnas. São camadas instrumentais e vozes que se entrelaçam de forma sempre precisa, indicativo do completo domínio da artista sobre o próprio trabalho. Um curioso resgate conceitual de tudo aquilo que marca o trabalho da cantora desde os primeiros registros autorais, vide o evidente diálogo com o som torto apresentado em Halfaxa (2010) e Visions (2012), mas que acaba servindo de passagem para um novo e estruturalmente amplo universo criativo.