"Women in Music Pt. III"

Ano: 2020
Selo: Columbia
Gênero: Pop Rock, Rock, Rock Alternativo
Para quem gosta de: Vampire Weekend e St. Vincent
Ouça: I Know Alone, Summer Girl e The Steps
Nota: 8.5

Crítica | Haim: “Women in Music Pt. III”

Women in Music Pt. III (2020, Columbia) é uma obra sobre libertação. Da construção dos versos, sempre marcados pela temática do empoderamento, passando pela busca por novas possibilidades criativas dentro de estúdio, cada fragmento do terceiro e mais recente álbum de inéditas do Haim reflete o esforço das irmãs Danielle, Este e Alana em ressignificar o próprio trabalho. São canções momentaneamente consumidas por memórias de um passado ainda recente, porém, inspiradoras, fortes, produto do esforço coletivo de cada integrante da banda e seus parceiros de produção, os músicos e colaboradores de longa data Rostam Batmanglij (Vampire Weekend, Carly Rae Jepsen) e Ariel Rechtshaid (Sky Ferreira, Charli XCX).

Todo o mantra desse registro é sobre ser destemida. Sinto que muitas vezes essa voz passa pela cabeça dizendo: ‘tenha medo, tenha medo, pare, pare, pare’. Com esse disco, desligamos essa coisa. Se isso acontecer com uma de nós, eu tenho duas irmãs que dizem: ‘continue’“, respondeu Danielle em entrevista à NME. É partindo justamente desse espírito de união entre o trio que os temas explorados ao longo do trabalho ganham novo significado. São versos que discutem isolamento, medo e depressão a partir do desejo de mudança e busca por superação. “E eu tenho tentado encontrar o meu caminho de volta … Levou tanto tempo / Caí / Agora estou nele“, canta em Now I’m In It, uma das primeiras composições a serem apresentadas ao público e uma clara síntese de tudo aquilo que o grupo busca desenvolver ao longo da obra.

São letras regidas pela vulnerabilidade dos temas, conflitos sentimentais e instantes de doce melancolia, como um convite a partilhar das experiências vividas por cada membro da banda, principalmente Danielle, personagem central do trabalho e co-produtora do disco. Perfeita representação desse exercício de autoafirmação ecoa com naturalidade logo nos primeiros minutos do trabalho, na pulsante The Steps. “E todos os dias eu acordo e ganho o meu dinheiro / E apesar de dividirmos uma cama, você sabe que não preciso da sua ajuda / Você entende? / Você não me entende“, dispara. São versos curtos, rápidos e diretos ao ponto, como se a cantora extraísse tudo o que parecia sufocado desde o disco anterior, Something to Tell You (2017).

A mesma riqueza e entrega no processo de composição das letras acaba se refletindo também na formação dos arranjos. Mesmo que seja possível perceber a herança de veteranos como Fleetwood Mac, Tom Petty e Shania Twain, algumas das principais referências criativas da banda, Women in Music Pt. III talvez seja o trabalho em que o grupo californiano mais se permite avançar dentro de estúdio. Exemplo disso ecoa com naturalidade no pop eletrônico de I Know Alone, música que reflete a interferência de Batmanglij, evoca Arthur Russell nos momentos de maior calmaria e, sutilmente, perverte tudo aquilo que o trio tem produzido desde a estreia com Days Are Gone (2013). “Algumas coisas nunca mudam / Eles nunca desaparecem / Algumas coisas nunca crescem“, reflete enquanto batidas eletrônicas e vozes carregadas de efeitos correm ao fundo da canção.

Entretanto, a grande beleza do álbum está justamente na produção de faixas menores, alheias ao bloco central do registro ou distantes do pop melódico de músicas como as já conhecidas Summer GirlHallelujah. É o caso de Gasoline. Da construção das guitarras, fortemente influenciadas pela obra de Jai Paul e Prince, passando pelo uso instrumental da voz, tudo soa como uma fuga dos antigos trabalhos da banda. A própria economia dos arranjos, marca da melancólica FUBT, funciona como um reforço aos versos lançados por Danielle. “Eu só vou continuar te amando / É difícil passar / De qualquer forma, eu vou perder / Então eu só vou continuar te amando“, confessa em uma delicada reflexão sobre relacionamentos abusivos e o peso do machismo, tema que abastece grande parte das canções.

Com imagem de capa fotografada por Paul Thomas Anderson no Canter’s Deli de Los Angeles, onde o trio se apresentou pela primeira vez, Women in Music Pt. III nasce como uma mescla do conforto familiar estimulado pela relação entre as próprias integrantes e a busca pela desconstrução de velhos conceitos. Onde antes brotavam músicas de essência radiofônica, como If I Could Change Your Mind, The Wire e Want You Back, hoje surgem faixas marcadas pela força dos sentimentos e profunda entrega emocional de cada realizadora. Um exercício de amadurecimento e transformação pessoal, proposta que faz do presente álbum um necessário ponto de ruptura e busca por novos caminhos dentro da curta, porém já significativa, discografia do Haim.