"Reflections"

Ano: 2019
Selo: PC Music
Gênero: Pop, R&B, Eletrônica
Para quem gosta de: Charli XCX e SOPHIE
Ouça: Never Again e Fade Away
Nota: 7.3

Crítica | Hannah Diamond: “Reflections”

Hannah Diamond sempre pareceu seguir uma medida própria de tempo. Enquanto SOPHIE, Charli XCX, Danny L Harle e outros nomes relacionados ao selo PC Music passaram grande parte da última década bombardeando o público com um catálogo de músicas inéditas, a cantora e compositora inglesa adotou uma estratégia diferente. São longos intervalos de tempo entre uma composição e outra, como se cada faixa entregue pela artista fosse tratada com extrema delicadeza, cuidado que se reflete no evidente comprometimento estético e, principalmente, lírico de canções como Attachment, Hi e Every Night.

O mesmo esmero na composição de cada elemento acaba se refletindo no primeiro álbum da cantora, o recém-lançado Reflections (2019, PC Music). Originalmente pensado como um EP, porém, ampliado durante sua execução em estúdio, o trabalho que começou a ser gravado em 2016 funciona como um resumo conceitual de tudo aquilo que Diamond tem produzido desde o início da carreira. Uma criativa sobreposição de ideias que vai do pop caricato da década de 1990 ao uso estilizado do auto-tune, colagens eletrônicas, sintetizadores e busca por um som tão futurístico quanto propositadamente nostálgico.

E isso se reflete com naturalidade logo nos primeiros minutos do disco, na dobradinha composta por Invisible e a própria faixa-título do disco. São camadas de sintetizadores, batidas que encolhem e crescem a todo instante e ruídos ocasionais, como se Diamond e seus principais parceiros de produção, os músicos A.G. Cook e Easyfun, preparassem o terreno para o restante da obra. Um lento desvendar de ideias e referências melódicas que poderiam facilmente ecoar como um simples exercício de estilo, talvez descartável, não fosse a capacidade da artista em fazer dos próprios sentimentos o principal componente criativo da obra.

Exemplo disso está na dolorosa Never Again. “Você foi o fim, e o começo / Aquele que me encontrei desejando não desaparecer / Você era a luz e a escuridão / Você me fez rir e chorar mais do que eu posso explicar … Nunca quero ouvir você / Peça desculpas novamente“, confessa. São pouco menos de quatro minutos em que a poesia triste de Diamond parece diretamente conectada à base eletrônica assinada por A.G. Cook. Um doloroso exercício criativo que tem sido aprimorado desde o lançamento de Attachment, mas que ganha ainda mais destaque no interior do presente disco.

O problema é que, justamente por ter levado tanto tempo até ser finalizado, muitas dos conceitos apresentadas em Reflections foram previamente testados por outros artistas. Do experimentalismo eletrônico que marca o trabalho de Charli XCX, em Pop 2 (2017), e SOPHIE, em Oil of Every Pearl’s Un-Insides (2018), passando pelo forte aspecto sentimental de Pang (2019), estreia em carreira solo de Caroline Polachek, não são poucos os elementos detalhados por Diamond que parecem melhor resolvidos em uma série de obras recentes. Mesmo a forte similaridade entre as faixas apresentadas no primeiro bloco do disco compromete o rendimento da obra. Falta ritmo e maior diferenciação entre as músicas, homogeneidade rompida somente com a chegada da já conhecida Fade Away, próxima ao encerramento da álbum.

Mesmo livre do fator surpresa, Reflections cresce como uma obra repleta de bons momentos. Da melancolia explícita nos versos de Love Goes On e Never Again, passando pela inusitada versão para Concrete Angel, música originalmente composta pelo norte-americano Gareth Emery, cada fragmento do disco reflete o esforço da artista britânica e seus parceiros de estúdio em não apenas absorver, como interpretar de forma particular incontáveis décadas de referências e elementos extraídos de diferentes campos da cultura pop. Uma colorida reciclagem de tendências que sutilmente define a identidade criativa da Hannah Diamond.



Leave a Reply