"Heard It in a Past Life"

Ano: 2019
Selo: Capitol / Debay
Gênero: Pop, R&B, Alternativa
Para quem gosta de: King Princess e Ryn Weaver
Ouça: Say It, Light On e
Nota: 6.5

Crítica: “Heard It in a Past Life”, Maggie Rogers

Heard It in a Past Life (2019, Capitol / Debay) está longe de parecer uma obra original. Do momento em que tem início, na crescente Give a Little, música que parece saída de algum registro do HAIM, até alcançar a derradeira Back In My Body, composição que lembra um inesperado encontro entre Florence + The Machine com Zola Jesus, cada fragmento do primeiro álbum de estúdio de Maggie Rogers parece apontar para diferentes campos da música pop de forma propositadamente referencial, curiosa.

E não poderia ser diferente. Longe de parecer um registro de inéditas, a estreia da cantora e compositora norte-americana se revela ao público como uma colorida coletânea de ideias e canções originalmente lançadas em um intervalo de quase três anos. São músicas como On + Off e Fallingwater que sintetizam toda a produção de Rogers desde que a artista de Maryland deu vida ao primeiro grande sucesso de sua carreira, o single Alaska, uma das composições que integram o EP Now That the Light Is Fading (2017).

Claro que a parcial ausência de novidade e evidente atraso na entrega do trabalho não faz de Heard It in a Past Life uma obra ruim. Pelo contrário: a estreia de Rogers está repleta de bons momentos. Exemplo disso está em Say It, música que aponta para o R&B dos anos 1990 em uma estrutura melódica muito similar aos trabalhos de Janet Jackson e Destiny’s Child. Um som deliciosamente romântico, pop e ainda amargo, proposta que orienta a experiência do ouvinte até o último instante da canção.

A mesma essência nostálgica acaba se refletindo em The Knife, música que resgata uma série de elementos típicos do pop dos anos 1980. Produzida em parceria com o veterano Greg Kurstin (Lily Allen, Kelly Clarkson), um dos principais articuladores do disco, a faixa parece emular a mesma atmosfera de obras como Tango in the Night (1987), do Fleetwood Mac, efeito das guitarras que correm ao fundo da canção. O mesmo direcionamento nostálgico acaba se refletindo em Retrograde, composição que se espalha em meio a batidas levemente dançantes e delicadas texturas de guitarras.

Como elemento de conexão entre faixas tão distintas, Rogers utiliza dos próprios sentimentos. “Eu nunca te amei totalmente do jeito que eu poderia / Eu lutei contra a corrente, correndo do jeito que você faria / E agora estou preso aqui em cima / E está ficando mais difícil / Eu sou como a queda de água“, canta na já conhecida Fallingwater, colaboração com Rostam Batmanglij (ex-Vampire Weekend) e uma delicada síntese da poesia agridoce que se manifesta durante toda a execução da obra.

Verdadeiro cartão de visita, Heard It in a Past Life acaba revelando ao público uma coleção de faixas que sintetizam com naturalidade a força criativa, voz e sentimentos detalhados por Maggie Rogers desde o início da carreira. Mesmo pecando pela ausência de novidade e completa similaridade com outros exemplares recentes da música pop, difícil não se deixar guiar pela doce melancolia e sentimentos que sutilmente ganham forma em preciosidades como Light On e Say It. Frações da identidade criativa e breve minúcia na construção do álbum.