"The Prettiest Curse"

Ano: 2020
Selo: Lucky Number / Mom + Pop
Gênero: Indie Rock, Pop Rock, Garage Rock
Para quem gosta de: Bleached e Chastity Belt
Ouça: Riding Solo e Burn
Nota: 7.5

Crítica | Hinds: “The Prettiest Curse”

O Hinds nunca foi uma banda de grandes pretensões. Desde o início da carreira, com o lançamento de Leave Me Alone (2016), passando pelas canções do enérgico I Don’t Run (2018), o grupo formado por Carlotta Cosials (voz, guitarras), Ana Perrote (voz, guitarras), Ade Martin (baixo, voz) e Amber Grimbergen (bateria) sempre pareceu interessado em produzir um som acessível, leve e divertido. Composições de essência caseira, sutilmente influenciadas pela obra de veteranos como The Libertines e The Strokes, porém, íntimas das experiências sentimentais, desilusões amorosas e conflitos vividos por cada integrante do quarteto de Madrid.

Longe de grandes surpresas, é exatamente isso que o ouvinte encontra ao mergulhar nas canções de The Prettiest Curse (2020, Lucky Number / Mom + Pop). Terceiro e mais recente álbum de estúdio da banda espanhola, o trabalho nasce como uma expansão criativa de tudo aquilo que o quarteto tem incorporado desde os primeiros registros autorais. São camadas de guitarras, batidas e vozes sobrepostas, estrutura que naturalmente peca pela ausência de novidade, porém, convence pela poesia honesta, atmosfera suja e entrega de cada realizadora durante toda a execução do disco.

Mesmo que as introdutórias Good Bad Times e Just Like Kids (Miau) sejam uma boa representação do som produzido pela banda em The Prettiest Curse, é com a chegada de Riding Solo, terceira música do disco, que o Hinds de fato mostra a que veio. Composição mais turbulenta já produzida pelo quarteto, a canção segue em uma estrutura crescente, fazendo de cada novo fragmento de voz, ruído ou batida lançada pelo grupo um componente precioso. O resultado desse intenso processo criativo está na entrega de uma faixa que parece maior e mais complexa a cada nova audição, lembrando os momentos de maior delírio de bandas como Pixies.

A mesma estrutura caótica acaba se refletindo em outros momentos ao longo do trabalho. É o caso de Burn, sexta faixa do disco. Do uso inexato das vozes, sempre cobertas por uma fina camada de distorção, passando pela forma como as guitarras passeiam livremente, lembrando as criações de Nick Valensi, diferentes décadas, conceitos e tendências parecem condensadas dentro de estúdio. Mesmo quando o grupo se permite provar de uma sonoridade mais pop, como em Waiting For You, evidente é o esforço da banda em brincar com a percepção do público, mudando de direção sem ordem aparente.

Dentro desse universo turbulento, onde cada composição parece incorporar diferentes sonoridades e conceitos criativos, interessante perceber o surgimento de faixas como a acústica Come Back And Love Me <3, são pouco mais de três minutos em que o quarteto desacelera, investe em elementos da música latina e busca por novas possibilidades. Mesmo Take Me Back, composição marcada pela força das guitarras, segue por um caminho diferente, evocando o trabalho de veteranos da década de 1980, como The Replacementes. Instantes em que o grupo preserva e perverte a própria identidade.

Parte dessa mudança de direção e busca por novas possibilidades vem da escolha da própria banda em colaborar com a produtora Jennifer Decilveo. Conhecida pelo trabalho ao lado de artistas como Bat for Lashes, Porridge Radio e Beth Ditto (The Gossip), a multi-instrumentista norte-americana estabelece um ponto de equilíbrio dentro da obra, fazendo com que faixas essencialmente distintas sejam incorporadas de forma harmônica. São criações anárquicas que se espalham em meio a composições deliciosamente contidas, estrutura que rege de forma particular todo o processo de formação do disco.