"Homecoming: The Live Album"

Ano: 2019
Selo: Parkwood / Columbia
Gênero: R&B, Hip-Hop, Pop
Para quem gosta de: Destiny's Child, Solange e Jay-Z
Ouça: Freedom, Formation e Run the World (Girls)
Nota: 9.0

Crítica | “Homecoming: The Live Album”, Beyoncé

Homecoming: The Live Album (2019, Parkwood / Columbia) está longe de ser encarado como um simples produto da elogiada performance de Beyoncé durante o Coachella de 2018. Trata-se de um verdadeiro fenômeno. Um registro documental, sonoro e estético daquela que é a maior artista viva do nosso tempo. Concebido em um intervalo de oito meses, com metade desse período dedicado exclusivamente ao ensaio das coreografias, composição dos arranjos e formação da identidade visual, o trabalho reflete não apenas o completo refinamento artístico da cantora, como assume a função de um importante fragmento cultural para a comunidade negra dos Estados Unidos.

Inspirado de maneira confessa nas apresentações de fanfarras organizados pelas Faculdades e Universidades Historicamente Negras – no original, Historically Black Colleges and Universities –, Homecoming sintetiza o desejo da artista em conceber um espetáculo a partir do encontro entre jovens negros vindos de diferentes campos do país. São bailarinos, uma orquestra de metais, percussionistas e uma banda de apoio formada apenas por mulheres. Um precioso (e necessário) exercício de representatividade que amplia tudo aquilo que a cantora havia explorado durante o lançamento de seu último álbum de estúdio, o excelente Lemonade (2016).

Partindo justamente desse conceito, Beyoncé revisita seus mais de 20 anos de carreira de forma atualizada e intensa. Estão lá clássicos como Crazy In Love, Baby Boy, Check on It, Single Ladies (Put a Ring on It) e todo o fino repertório que rapidamente transportou a artista norte-americana para o topo das principais paradas de sucesso. Um minucioso exercício criativo que ganha ainda mais destaque no peso do discurso e força dos arranjos incorporados em músicas como Freedom, Formation e Flawless. É como se a cantora alcançasse um evidente ponto de equilíbrio entre a poesia política e a capacidade de fazer o público dançar.



Exemplo disso está na nova roupagem de Sorry e, principalmente, Run the World (Girls). “Obrigada por me permitir ser a primeira mulher negra a liderar o Coachella. Essa música é dedicada a todas as mulheres incríveis que abriram as portas para mim. Muito obrigada, senhoras“, reforça momentos antes da banda marcial, metais e coro de vozes femininas invadirem a apresentação. O mesmo cuidado se faz evidente na delicada interpretação de Lift Every Voice and Sing, criação originalmente composta no início do século passado pelo poeta James Weldon Johnson (1871–1938) e um importante hino para a população negra dos Estados Unidos.

Mesmo conceitualmente amplo e provocativo, Homecoming tropeça em uma série de pequenos defeitos. Originalmente pensado como um documentário para a Netflix, o trabalho depende do complemento das imagens para que determinadas interações do registro façam sentido. Exemplo disso está em Bug a Boo Roll Call, criação puramente imagética e que parte do movimento coreografado de seus realizadores para capturar a atenção do público. O próprio ato de abertura do trabalho, com Beyoncé desfilando como deusa africana pelo palco, funciona apenas na composição visual da obra, tornando a experiência do ouvinte parcialmente incompleta. Surgem ainda problemas de captação dos instrumentos e vozes na primeira metade do trabalho, diminuindo drasticamente o alcance dos arranjos e versos lançados pela cantora.

Entretanto, uma vez dentro desse universo temático, difícil escapar do material entregue pela cantora. Da icônica imagem de capa, trabalho inspirado pelo clássico Amazing Grace (1972), de Aretha Franklin, passando pela breve interferência das antigas parceiras no Destiny’s Child, Kelly Rowland e Michelle Williams, além, claro, do encontro com o marido Jay-Z, em Déjà Vu, cada elemento do disco sintetiza a força e identidade criativa da cantora. Um exercício grandioso e essencialmente complexo que ao encerramento do último verso nos faz questionar: o que vem agora, Beyoncé?



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