"Humana"

Ano: 2019
Selo: Joia Moderna
Gênero: MPB, Rock, Jazz
Para quem gosta de: Gal Costa e Maria Bethânia
Ouça: Alinhamentos Energéticos e Revelação
Nota: 8.0

Crítica | “Humana”, Fafá de Belém

A forte dramaticidade explícita logo nos primeiros minutos de Ave do Amor, colaboração entre Arthur Nogueira e Ava Rocha, diz muito sobre o caminho assumido por Fafá de Belém em grande parte de Humana (2019, Joia Moderna). Primeiro álbum de estúdio da cantora e compositora paraense desde o regional Do Tamanho Certo Para o Meu Sorriso (2015), o trabalho que conta com produção assinada pelo já citado Nogueira encontra na profunda entrega sentimental explícita nos versos a base para um registro grandioso e tocante. Frações poéticas que se projetam como um regresso inevitável aos instantes de maior sensibilidade na carreira da artista.

Quando a gente tenta / De toda maneira dele se guardar / Sentimento ilhado, morto, amordaçado / Volta a incomodar / Um dia vestido de saudade viva / Faz ressuscitar“, canta em Revelação, música que ganha forma aos poucos, sem pressa, detalhando cada fragmento de voz lançado pela cantora. Um doloroso exercício poético que resgata o clássico originalmente composto em 1978 por Clésio Ferreira e Clodo Ferreira, mas que se completa pela minúcia dos arranjos assinados coletivamente por Allen Alencar (guitarra), João Paulo Deogracias (baixo e sintetizadores), Richard Ribeiro (bateria e percussão) e Zé Manoel (pianos).

De fato, é dentro desse permanente jogo entre passado e presente que Belém e os parceiros de produção estabelecem um curioso ponto de equilíbrio para o crescimento da obra. São composições que atravessam mais de quatro décadas de experiências sentimentais, como se a cantora dançasse pelo tempo, sempre de forma romântica, coletando vivências e emoções compartilhadas por diferentes nomes da música popular brasileira. Um amplo catálogo de referências que vai de Dona de Castelo, música originalmente composta em 1974, por Jards Macalé e Waly Salomão, e chega até o presente cenário.

Vem daí a bem-sucedida interpretação da inédita Alinhamento Energético, música composta por Letícia Novaes (Letrux), mas que se transforma em um registro próprio de Belém. “Que fase louca / Que fase doida / Que ano é esse? / O que é que vem depois? / Eu tô exausta, eu tô perdida / Já me disseram que só começou“, canta em um misto de desespero e aceitação, estrutura que aponta a todo momento para o mesmo universo temático de Letrux Em Noite de Climão (2017). Um instante de breve respiro que não apenas se distancia do restante da obra, como deve aproximar a cantora paraense de uma nova parcela do público.

Surgem ainda preciosidades como a dramática O Terno e Perigoso Rosto do Amor, música composta por Adriana Calcanhotto a partir de um poema de Jacques Prévert (1900 – 1977). Em Eu Sou Aquela, de Joyce Moreno e Paulo César Pinheiro, um misto de leveza a provocação, conceito que se completa pela fina base instrumental que dialoga com o jazz de forma sempre sensível. Na derradeira Toda Forma de Amor, uma interpretação simples, porém, honesta daquele que é um dos maiores clássicos de Lulu Santos.

Partindo desse ziguezaguear de ideias e experiências sentimentais, Fafá de Belém entrega ao público uma obra conceitualmente ampla, porém, concisa, efeito direto da rica base instrumental que aproxima e serve de complemento direto aos versos derramados pela cantora. Concebido em um intervalo de poucos meses, Humana reflete um comprometimento estético poucas vezes antes visto em algum álbum da artista paraense. São canções que mesmo vindas de diferentes épocas e compositores, refletem o que há de mais sensível no cotidiano de qualquer indivíduo apaixonado.