"I Am Easy to Find"

Ano: 2019
Selo: 4AD
Gênero: Indie Rock, Rock Alternativo
Para quem gosta de: Interpol e Broken Social Scene
Ouça: Quiet Lights e Light Years
Nota: 8.0

Crítica | “I Am Easy to Find”, The National

Entre versos contemplativos e obras que discutem a situação política dos Estados Unidos, de tempos em tempos, os integrantes do The National se reúnem para a produção de um trabalho marcado pela força dos sentimentos, confissões românticas e poemas embriagados de Matt Berninger. Da melancolia explícita em Alligator (2005), álbum que reflete o princípio do amadurecimento criativo da banda, passando pela completa entrega emocional de Trouble Will Find Me (2013), preciosos são os momentos em que o quinteto de Cincinnati, Ohio, convida o ouvinte a mergulhar em um universo de pequenos tormentos e desilusões pessoais.

Oitavo e mais recente álbum de estúdio do grupo norte-americano, I Am Easy to Find (2019, 4AD) é claramente um desses trabalhos. Sequência ao bem-sucedido Sleep Well Beast (2017) — obra que aproximou a banda do uso de temas eletrônicos e trouxe severas críticas ao governo de Donald Trump —, o novo disco não apenas desacelera em relação a seu antecessor, como resgata a melancolia que há tempos orienta o som produzido pelo The National. Canções ancoradas em relacionamentos fracassados, versos consumidos pela dor e o lento distanciamento entre os indivíduos.

Eu devo isso ao meu coração, cada palavra que eu disse / Você não tem ideia do quanto eu morri quando você partiu / Se eu ceder aos meus transes, vou me aproximar de novo?“, questiona logo nos primeiros minutos do disco, na dolorosa You Had Your Soul with You. São versos que regressam ao mesmo universo em preto e branco de Trouble Will Find Me, como um doloroso resgate dos principais conflitos sentimentais e memórias que atormentam a mente de Berninger. “Há um milhão de pequenas batalhas que eu nunca vou vencer / Eu ainda estou esperando por você“, reforça na faixa-título do disco, indicativo do caminho tortuoso que orienta a experiência do ouvinte até os versos finais da derradeira Light Years.

Eu não tenho medo de te dizer o que eu quero / Eu não tenho medo de nada, eu quero tudo / Nunca me deixe aqui por muito tempo / Coloque-me no seu filme, prenda-me à sua parede“, desaba em Roman Holiday, música que sintetiza a completa entrega, submissão e vulnerabilidade do eu lírico, conceito que vem sendo destilado por Berninger há quase duas décadas. A principal diferença em relação aos últimos trabalhos da banda está na delicada inserção de vozes femininas assumidas por um time seleto de colaboradoras. São nomes como Lisa Hannigan, Sharon Van Etten, Mina Tindle, Gail Ann Dorsey e Kate Stables, responsáveis por reforçar a forte carga emocional que rege o disco, garantindo novo acabamento e beleza ao material entregue pelo grupo.

A própria base instrumental do álbum parece transportar o som produzido pelo The National para um novo território criativo. Do minimalismo agridoce que embala Not In Kansas, composição que faz lembrar o The xx em Coexist (2012), passando pelo uso de temas eletrônicos, em Quiet Lights, além, claro, das captações atmosféricas de Hey Rosey e da própria faixa-título do disco, cada fragmento da obra mostra o esmero dos irmãos Aaron e Bryce Dessner, esse último, responsável pelas orquestrações e fina base instrumental que ainda conta com a presença de Justin Vernon (Bon Iver), Thomas Bartlett (Doveman) e um coro de vozes do Brooklyn Youth Chorus.

Pensado para além dos limites de estúdio, I Am Easy to Find ainda chega acompanhado de um delicado curta-metragem dirigido pelo cineasta Mike Mills (Mulheres do Século 20, Toda Forma de Amor) e protagonizado pela atriz sueca Alicia Vikander, destaque também na imagem de capa do disco. Não se trata de uma trilha sonora ou um complemento visual à base lírica do disco, mas duas obras geradas a partir de um mesmo conceito temático. Fragmentos visuais, melódicos e poéticos que se entrelaçam em uma tentativa clara do grupo norte-americano em se reinventar conceitualmente.