"i, i"

Ano: 2019
Selo: Jagjaguwar
Gênero: Indie, Folk, Experimental
Para quem gosta de: Sufjan Stevens e Fleet Foxes
Ouça: iMi, Naeem e Hey, Ma
Nota: 8.6

Crítica | “i, i”, Bon Iver

Com a boa repercussão em torno do primeiro álbum de estúdio da carreira, For Emma, Forever Ago (2007), Justin Vernon poderia facilmente se perder em uma espiral de autoplágio, brincando com as ideias em uma permanente reciclagem de versos entristecidos e melodias acústicas, direcionamento adotado por Iron & Wine, The Tallest Man on Earth e outros tantos personagens que surgiram no mesmo período. Entretanto, como indicado durante a produção de Blood Bank EP (2009), cada novo registro de inéditas entregue pelo cantor e compositor estadunidense parecia transportar o ouvinte para um novo e sempre inusitado território criativo.

Em i, i (2019, Jagjaguwar), quarto e mais recente álbum de estúdio do músico como Bon Iver, não poderia ser diferente. Fim do ciclo temático que teve início do inverno de For Emma, Forever Ago, passa pela primavera do autointitulado registro de 2011, e cresce no verão delirante de 22, A Million (2016), o trabalho co-produzido em parceria com Chris Messina e Brad Cook encontra na lenta desconstrução das ideias a base para um registro que muda de forma a cada nova audição. São fragmentos de vozes, arranjos atmosféricos e orquestrações pontuais que encolhem e crescem a todo instante, como uma versão remodelada e deliciosamente estranha de tudo aquilo que o músico norte-americano vem experimentando desde o início da carreira.

Não por acaso, Vernon escolheu a existencialista iMi como faixa de abertura do disco. Sequência aos ruídos da introdutória Yi, a canção completa pela presença de James Blake e Channy Leaneagh (POLIÇA) preserva a essência delirante do restante da obra, porém, em nenhum momento se distancia da poesia confessional do músico norte-americano. “Vivendo de maneira solitária / Vinha me procurando de outras formas / Porque eu sou, eu estou, eu estou perdido aqui, de novo“, canta enquanto vozes tratadas como instrumentos e ambientações jazzísticas correm ao fundo da canção, reforçando o desejo do eu lírico em se encontrar, proposta que orienta a experiência do ouvinte até o último instante da obra, na crescente RABi, música marcada pelo isolamento do protagonista e pequenas inquietações religiosas.

De fato, i, i é um disco inteiro sobre isso: a necessidade de qualquer indivíduo em se encontrar. O próprio título da obra, com o espelhamento do pronome “eu”, reforça esse conceito. São poemas musicados em que Vernon e os parceiros de banda se aprofundam no distanciamento entre as pessoas, a frieza nas relações humanas, conflitos religiosos e o peso da memória no processo de formação da nossa identidade. Um doloroso exercício de profunda entrega emocional, proposta evidente no autobiográfica Hey, Ma, uma homenagem à mãe do cantor que cresce a partir de recordações da infância. O mesmo cuidado acaba se refletindo em Faith, nona faixa do disco, canção que mergulha na busca pela fé para além do pensamento espiritual, reforçando a crença do próprio músico nos amigos e aqueles que o cercam.

Uma vez imerso nesse cenário marcado pelas ideias, Vernon se permite crescer para além do limite dos versos, jogando com o uso de fórmulas instrumentais inusitadas e pequenas corrupções estéticas. Do refinamento acústico evidente nos dois primeiros discos, pouco sobreviveu. Salve exceções, como a contida Marion, a grande beleza de i, i se concentra na forma como o trabalho muda de direção a todo instante. Do coro de vozes atmosféricas e batidas fortes de Naeem, passando pelas melodias de U (Man Like), música que vai de Stevie Wonder a Fleetwood Mac, evidente é o esforço do grupo norte-americano em perverter o óbvio. Retalhos conceituais que se espalham sem ordem aparante, proposta que vai do soft rock de Sh’Diah ao R&B eletrônico de We.

Parte dessa estrutura diversa vem da forma como o próprio álbum foi concebido, com Vernon abrindo as portas do registro para a chegada dos mais variados colaboradores. Dos irmãos Aaron e Bryce Dessner (The National) a Moses Sumney, de Jenn Wasner (Wye Oak) ao produtor Wheezy (Young Thug, Future), cada fragmento do disco cresce pela forma como o músico norte-americano costura incontáveis retalhos instrumentais e poéticos de forma instável. A própria imagem de capa, identidade visual e série de vídeos produzidos para o trabalho indicam o esforço do artista em colidir diferentes ideias, fazendo desse recolhimento existencial o princípio de uma obra que naturalmente dialoga com outros campos das artes e improváveis referências criativas.



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