"IGOR"

Ano: 2019
Selo: Columbia
Gênero: Hip-Hop, Rap, R&B
Para quem gosta de: Frank Ocean e Earl Sweatshirt
Ouça: Gone, Gone, I Think e I Don't Love You Anymore
Nota: 8.4

Crítica | “IGOR”, Tyler, The Creator

Você pode esperar por qualquer coisa de Tyler, The Creator, menos o óbvio. Prova disso está nas canções de IGOR (2019, Columbia), sexto e mais recente álbum de estúdio do rapper californiano. De essência conceitual, como tudo aquilo que vem sendo produzido pelo artista desde a estreia com Bastard (2009), o trabalho centrado em um conjunto específico de personagens parte da descoberta do amor para mergulhar em um relacionamento obsessivo e doentio, narrativa que segue até o último instante da obra, quando o eu lírico precisa se conformar com o fato que deixou de ser amado, restando apenas a amizade e o inevitável distanciamento entre os indivíduos.

Não por acaso, o rapper decidiu lançar o trabalho na íntegra, evitando a divulgação de músicas isoladas, direcionamento que naturalmente força uma audição atenta por parte do ouvinte, do primeiro ao último instante da obra. “Não espere por um álbum de rap. Não espere qualquer álbum. Apenas vá, se jogue nele. Eu acredito que a primeira audição funciona melhor de forma ininterrupta, sem pulos. De frente para trás“, explicou em um texto de lançamento sobre o registro, no Twitter. É como se o artista revelasse ao público uma narrativa quase cinematográfica, conceito reforçado logo na imagem de capa do disco, com uma estética típica de clássicos do horror nos anos 1960 e 1970 e a assinatura formal, como a de um diretor – “todas as canções escritas, produzidas e arranjadas por Tyler Okonma“.

Tamanho comprometimento estético resulta na produção de um trabalho menos orientado pela composição das rimas e muito mais pela atmosfera proposta pelo artista. É como se Tyler partisse da mesma ambientação instável detalhada em Some Rap Songs (2018), último álbum de estúdio de Earl Sweatshirt, proposta que naturalmente arrasta o ouvinte para dentro de um registro conceitualmente hermético, ainda que turbulento. Do uso destacado dos sintetizadores e ruídos eletrônicos, passando pela distorção nas batidas, vozes e samples, Okonma sutilmente perverte a atmosfera doce e todo o romantismo detalhado no antecessor Flower Boy (2017). Um misto de caos e evidente refinamento criativo.

Marcado pela dualidade dos elementos, IGOR parte do romantismo confesso, vide a colaboração com Playboi Carti, em Earfquake (“Andando por aí, seu amor está me sacudindo / E fazendo meu coração quebrar / Porque você faz minha terra tremer“), para um território sombrio e doloroso, marca de I Don’t Love You Anymore (“Porque eu não te amo mais/ Mas isso pode ser melhor para nós, sabe?“). Pouco menos de 40 minutos em que Tyler transforma as próprias desilusões e experiências pessoais em música, estrutura que naturalmente dialoga com o ouvinte, vide o material entregue em músicas como I Think, Gone, Are We Still Friends? e a insana A Boy Is a Gun.

Uma vez dentro desse universo marcado pela incerteza dos elementos, mesmo convidados como Solange, Kanye West, La Roux e Santigold parecem esteticamente corrompidos pela essência de Tyler. São fragmentos de versos e poemas distorcidos que contribuem para o conceito delirante da obra. Exemplo disso está em Gone, Gone / Thank You, décima composição do disco. Pouco mais de seis minutos em que o rapper brinca com a voz infantilizada de CeeLo Green, utiliza de elementos da obra produzida pelo músico japonês Tatsuro Yamashita e ainda replica a atmosfera de clássicos da década de 1960, como uma estranha interpretação do romantismo agridoce de veteranos como The Beach Boys. Surgem ainda inserções pontuais do comediante Jerrod Carmichael, um coro de vozes femininas e a breve interferência de nomes como Pharrell Williams, Lil Uzi Vert e Slowthai.

Naturalmente estranho, como tudo aquilo que o rapper vem produzindo desde o início da presente década, IGOR mostra a capacidade do artista californiano em se reinventar dentro de estúdio, mesmo partindo de uma estrutura temática há muito desgastada e consumida pelos excessos. Entre versos românticos, instantes de profunda melancolia e versos marcados pela completa entrega sentimental, Okonma não apenas assume uma nova identidade criativa, como revela ao público um de seus trabalhos mais inventivos, loucos. Um misto de continuação e propositada ruptura estética que amplia de forma caótica tudo aquilo que Tyler havia testado nos últimos trabalhos.