"There Is No Other"

Ano: 2020
Selo: Cooking Vinyl
Gênero: Folk, Pop de Câmara, Indie Pop
Para quem gosta de: Laura Marling e Camera Obscura
Ouça: Hey World, Ant Life e The Heart of It All
Nota: 8.0

Crítica | Isobel Campbell: “There Is No Other”

Seja como integrante do Belle and Sebastian, onde trabalhou na produção de obras como Tigermilk (1996), If You’re Feeling Sinister (1996) e The Boy with the Arab Strap (1998), ou ao lado de Mark Lenegan, parceiro nos confessionais Ballad of the Broken Seas (2006), Sunday at Devil Dirt (2008) e Hawk (2010), Isobel Campbell sempre soube como capturar a atenção do ouvinte a partir de histórias simples, porém, carregadas de significado. Frações poéticas que se espalham em meio a indagações existencialistas, relacionamentos fracassados e o olhar curioso da musicista escocesa sobre diferentes aspectos da relações humanas.

Satisfatório perceber nas canções de There Is No Other (2020, Cooking Vinyl), primeiro trabalho solo de Campbell em 14 anos, a passagem para um registro que não apenas preserva a essência dos antecessores Amorino (2003) e Milkwhite Sheets (2006), como sutilmente amplia esse resultado. São melodias e vozes sempre econômicas, sensíveis, estrutura que se reflete tão logo o disco tem início, em meio ao cricrilar e ambientações enevoadas de City of Angels, e segue até a derradeira Below Zero, canção de base acústica que parece dialogar com a obra de Joni Mitchell e outros nomes de destaque da década de 1970.

Entretanto, para além da propositada reciclagem de tendências, sobrevive na obra de Campbell uma clara tentativa da artista em provar de novas possibilidades em estúdio. Exemplo disso está em Ant Life, quarta faixa do disco. Enquanto os versos discutem a inevitabilidade da passagem do tempo e a frieza das relações humanas – “Pessoas como formigas na estrada / Pessoas como formigas no shopping / Pessoas como formigas marchando em frente/ Sem tempo para parar” –, musicalmente o registro avança, mergulhando em meio a fórmulas pouco usuais. São ambientações eletrônicas e sintetizadores que servem de contraponto à base acústica da canção, estrutura que naturalmente faz lembrar do clássico Central Reservation (1999), de Beth Orton.

Mais à frente, em Rainbow, a mesma tentativa de Campbell em costurar passado e presente de forma particular. São pouco menos de três minutos em que a musicista vai da bossa nova ao pop de câmara em uma linguagem marcada pelo frescor dos elementos, conceito anteriormente testado perlo Kings of Convenience em obras como Declaration of Dependence (2009). Mesmo Vultures, logo na abertura disco, reflete o mesmo tratamento e precioso cruzamento de ideias. São melodias acústicas que ganham forma em meio a reverberações psicodélicas, direcionamento que se reflete em outros momentos ao longo do álbum, como na lisérgica See Your Face Again.

Nada que se compare ao material apresentado na sequência formada por The Heart of It All e Hey World. Do sentimento de união que embala a composição dos versos – “Se você abrir seu coração / O que podemos encontrar? Nós somos amor / Vamos fazer certo desta vez” –, passando pelo coro de vozes complementares e uso destacado de elementos do soul rock, poucas vezes antes o trabalho de Campbell pareceu tão abrangente, mágico. São quatro ou mais décadas de referências que se moldam de forma a dialogar com a leveza proposta pela artista, cuidado que se reflete mesmo nos momentos menos expressivos do álbum.

Feito para ser absorvido aos poucos, sem pressa, conceito reforçado logo na introdutória City of Angels, There Is No Other utiliza de uma base contida para provar de pequenas doses de agitação criativa. Não por acaso, Campbell levou mais de uma década para entregar ao público um novo trabalho de inéditas. É como se cada componente do disco assumisse uma função específica. Canções que se entrelaçam de maneira sutil, revelando incontáveis camadas instrumentais, fragmentos de vozes e ambientações ocasionais. Um olhar curioso para o passado, mas que em nenhum momento esquece do presente, proposta que faz do álbum um projeto imenso, mesmo no reducionismo de seus elementos.