"Olho de Vidro"

Ano: 2021
Selo: Balclava Records
Gênero: MPB, Rock, Soul
Para quem gosta de: Ava Rocha, Josyara e Luiza Lian
Ouça: Nada, Lian e A Ginga do Nêgo
Nota: 9.0

Crítica | Jadsa: “Olho de Vidro”

Camadas de guitarras que se entrelaçam em uma medida própria de tempo, a percussão diminuta e vozes tratadas como mantras, sempre cíclicas e transcendentais. Ouvir as composições de Olho de Vidro (2021, Balaclava Records), estreia da cantora e compositora Jadsa Castro, é como entrar no mar. São canções que se projetam em meio a ondulações tímidas, quase imperceptíveis, mas que se convertem em verdadeiros turbilhões instrumentais e poéticos, convidando o ouvinte a se perder em um oceano de memórias e sentimentos conflitantes. Um misto de dor e libertação, entrega e doce vulnerabilidade, como se a artista baiana transportasse para dentro de estúdio parte das histórias, relacionamentos amorosos e tudo aquilo que tem vivido nos últimos anos.

Feito para ser absorvido aos poucos, sem pressa, o sucessor de Taxidermia (2020), diz a que veio logo nos primeiros minutos, na introdutória Mergulho. São fragmentos de vozes – “olho”, “oco”, “rosto” e “fundo do mar” –, que parecem soprados de forma a revelar a letra da canção – “Eu vou pintar o mar no fundo do seu olho / De lá refletirão mil tons rebatidos no oco / Depois da água, a alegria suaviza seu rosto“. Retalhos sensoriais e líricos que utilizam de elementos da natureza, personagens reais e sentimentos como estímulo para a formação de uma massa essencialmente mutável, viva, conceito que muito se assemelha ao material entregue no também delicado Mansa Fúria (2018), da conterrânea Josyara,

Uma vez imersa nesse cenário, Jadsa parece brincar com os instantes. Canções que vão da calmaria ao caos de forma sempre inexata, por vezes torta, jogando com a interpretação do público. Exemplo disso acontece em Mangostão, sexta faixa do disco. Pouco mais de quatro minutos em que a cantora convida o ouvinte a se perder em meio a guitarras psicodélicas e versos misteriosos que vão de elementos da cultura baiana ao uso de citações que envolvem Gal Costa, Ava Rocha e ÀTTØØXXÁ. Um colorido jogo de palavras e sensações que refletem a capacidade da artista em provar de diferentes elementos da música brasileira, porém, partindo de uma linguagem totalmente imprevisível e particular.

Parte desse resultado vem justamente da forma como Jadsa incorpora a obra de veteranos da nossa música, porém, preservando a própria identidade. Canções que vão da essência teatral de Itamar Assumpção, uma das principais influências da cantora, à voz fluida de Gal Costa, personagem que inspira os versos da crescente Sem Edição, faixa que parece maior e mais complexa a cada nova audição. De fato, difícil não pensar em Olho de Vidro como uma confessa homenagem à produção brasileira. São cinco ou mais décadas de referências que parecem diluídas ao longo do álbum. Composições que vão do samba ao som de terreiros de maneira essencialmente orgânica, cuidado que se reflete em algumas das principais músicas do disco, como a já conhecida A Ginga do Nêgo.

Entretanto, muito além do olhar saudosista para o passado, a grande beleza do trabalho está na capacidade da artista em dialogar com o presente. Do encontro com Ana Frango Elétrico e Kiko Dinucci, na colaborativa Raio de Sol, passando por Run, Baby, parceria com Josyara, sobram composições em que Jadsa estreita a relação com diferentes nomes da novíssima música brasileira. Mesmo quando desfila sozinha pelo interior do álbum, como em Já Ri e na própria faixa-título, evidente é o esforço em incorporar diferentes ritmos de forma atualizada. Claro que isso não interfere na capacidade da compositora em transitar por outros estilos, como no som delirante de Fora, Marte! e na atmosférica Nada, faixa que vai do jazz ao pós-rock e ainda serve de passagem para o som iluminado de Lian, canção que se completa pela presença da homenageada Luiza Lian.

Mais uma vez acompanhada pelo produtor João Meirelles, com quem colaborou no registro anterior, Jadsa faz de Olho de Vidro um álbum marcado pelas possibilidades e permanente busca por novas direções criativas. É como se a artista incorporasse tudo aquilo que tem explorado desde as canções apresentadas em Godê (2015), porém, de maneira cada vez menos linear e estranhamente atrativa, como se um registro diferente fosse apresentado ao público a cada audição. São composições que partem sempre de uma base reducionista, entortam, crescem, mudam de direção, confessam referências e estabelecem na voz da compositora baiana um precioso elemento de condução. Fragmentos que uma vez orquestrados pela cantora, servem de passagem para uma das obras mais sensíveis e conceitualmente diversas da produção brasileira em sua fase mais recente.

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