"A New Found Relaxation"

Ano: 2020
Selo: Independente
Gênero: Experimental, Música Ambiente
Para quem gosta de: William Basinski e Oneohtrix Point Never
Ouça: Touched By An Angel e Idiot Passion
Nota: 7.8

Crítica | James Krivchenia: “A New Found Relaxation”

Como baterista e co-produtor do Big Thief, James Krivchenia trabalhou na realização de alguns dos registros mais sensíveis da última década. São obras como Capacity (2017), ou mesmo os ainda recentes Two Hands (2019) e U.F.O.F. (2019), em que o músico norte-americano e seus parceiros de banda se concentram na produção de um material puramente atmosférico, estímulo para os versos detalhados pela vocalista Adrianne Lenker. Interessante perceber nas canções de A New Found Relaxation (2020, Independente), primeiro álbum do artista em carreira solo, a passagem para um universo de novas escolhas e diferentes possibilidades.

Concebido de forma caseira, durante o período de isolamento forçado pela pandemia de Covid-19, o registro de 12 faixas e pouco menos de 30 minutos de duração ganha forma em meio a ambientações sintéticas, ruídos e captações aquáticas. Composições que parecem alcançar um ponto de equilíbrio entre o experimentalismo eletrônico de nomes como Oneohtrix Point Never e as distorções atmosféricas de William Basinski e Jefre Cantu-Ledesma, conceito que embala a experiência do ouvinte até o último instante da obra.

São camadas instrumentais que surgem e desaparecem, sintetizadores que se perdem em uma nuvem de sons abstratos e captações de campo que garantem um aspecto orgânico à obra. Exemplo disso está na sonoridade mágica de Fountains of Youth. Inaugurada em meio a melodias aprazíveis e cantos de pássaros, a faixa rapidamente convida o ouvinte a se perder em um labirinto de sons e reverberações sintéticas. O mesmo resultado acaba se refletindo na delirante Idiot Passion, música que parte de uma base percussiva, porém, avança em direção à uma massa de ruídos e abstrações aquáticas.

O mais interessante talvez seja perceber como tudo isso acontece em um intervalo de poucos segundos. Salve exceções, como a detalhista Touched By An Angel, grande parte do trabalho se resolve em faixas de curta duração. É o caso de Now I Walk In Beauty, música que parte do som de uma corredeira e cresce em meio ambientações inexatas, como se diferentes obras fossem condensadas em um curto intervalo de tempo. A própria Temptation Reduced, logo na abertura do álbum, parece reforçar esse conceito, apontando a direção seguida por Krivchenia durante toda a execução do álbum.

Mesmo nesse universo de pequenas sobreposições etéreas e faixas montadas a partir de diferentes recortes instrumentais, curioso perceber a forma como Krivchenia garante uma forte aproximação entre as músicas. Ainda que as captações aquáticas sejam tratadas como o grande elemento de formação da obra, perceba como o produtor parece jogar com a inserção de sintetizadores e colagens eletrônicas bastante similares, proposta que acaba amarrando composições distintas como Temptation Reduced e The Eternal Spectator.

Novo e inusitado passo na carreira de Krivchenia, A New Found Relaxation joga com os momentos, porém, preservando a forte relação entre as faixas. É como se tudo não passasse de uma extensa composição fatiada em pequenos blocos conceituais. Instantes em que o produtor norte-americano estabelece pequenos respiros bucólicos em um cenário marcado pela inserção dos ruídos, melodias eletrônicas e sobreposições sintéticas, estrutura que naturalmente força uma audição atenta por parte do ouvinte, convidado a se perder nesse curioso território de sensações.


Jornalista, criador do Miojo Indie e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.