"Essential Mix"

Ano: 2020
Selo: BBC
Gênero: Eletrônica, Techno, Dance
Para quem gosta de: Four Tet e Floating Points
Ouça: Smile Away, Complexo De Épico e Breathe
Nota: 8.0

Crítica | Jamie xx: “Essential Mix”

Em quase três décadas de criação, não foram poucos os artistas que fizeram da passagem pelo cultuado Essential Mix, programa de duas horas da BBC Radio 1 nas madrugadas de sábado, o estímulo para alguns dos trabalhos mais importantes da produção eletrônica. São nomes como Paul Oakenfold, Daft Punk, Nicolas Jaar, Basement Jaxx e outros representantes do gênero que utilizaram do espaço para apresentar suas próprios criações, confessar referências, resgatar músicas esquecidas e, principalmente, fazer o ouvinte dançar. Uma criativa colisão de ideias e experiências que ganha ainda mais destaque com a recente apresentação do britânico Jamie xx.

Sequência ao material entregue há nove anos, durante a primeira passagem do produtor pelo programa, a recente performance do também integrante do The xx evidencia a imagem de um artista maduro e versátil durante a montagem de todo o repertório. São 120 minutos em que James Thomas Smith, verdadeiro nome do músico inglês, vai das raves dos anos 1990 aos clubes de jazz, do experimentalismo eletrônico ao uso de ritmos brasileiros, cuidado que se reflete até a faixa de encerramento do trabalho, uma apresentação ao vivo do saxofonista estadunidense Kamasi Washington.

Claramente dividido em dois blocos específicos, a Essential Mix de Jamie xx concentra na primeira metade a passagem para o lado mais experimental da obra. Não por acaso, o produtor inaugura o trabalho com uma inusitada releitura de Koyaanisqatsi, do pianista e compositor norte-americano Phillip Glass. Parte da trilha sonora do filme homônimo de Godfrey Reggio, lançado em 1982, a faixa aponta a direção seguida pelo artista pelos próximos 60 minutos. São ambientações eletrônicas, ruídos ocasionais e instantes marcados pelo mais completo delírio, como no encontro entre Across The River, de Peter Gabriel, e Complexo De Épico, música originalmente lançada por Tom Zé no clássico Todos os Olhos (1973).

Claro que essa busca por uma estrutura pouco convencional não interfere na entrega de músicas prontas para as pistas. É o caso de Melt!, recente criação da britânica Kelly Lee Owens que parece pensada especialmente para o trabalho. Surgem ainda preciosidades como o clássico Party People, música lançada em 1998 por DJ Technics e um indicativo claro do aspecto referencial que orienta a obra do produtor. Mesmo a inédita colaboração com Oliver Sim, parceiro de banda no The xx, não apenas reflete o lado dançante da seleção, como serve de complemento ao primeiro álbum de Jamie xx em carreira solo, o elogiado In Colour (2015)

É partindo justamente desse mesmo direcionamento criativo que Smith orienta toda a segunda metade do trabalho. Do momento em que tem início Mystic Force, faixa lançada em 1993 pelo produtor homônimo, cada nova composição parece pensada para fazer o ouvinte dançar. Estão lá músicas como Bias, parte do último álbum de estúdio de Floating Points, o excelente Crush (2019); a extensa 2000 Black’s Got To Be Free, bem-sucedido encontro entre Fela Kuti e Roy Ayres, e a nostálgica People Are Still Having Sex, clássico de 1991, do norte-americano LaTour. A própria Idontknow, mais recente criação do próprio artista, assume novo significado dentro do contexto da obra, como uma síntese conceitual de todo o registro.

Com base nessa estrutura, Jamie xx entrega ao público uma obra que parece feita para ser desvendada. Mesmo que seja absorvida de forma quase imediata, logo em uma primeira audição, sobrevive nas pequenas brechas do registro, fragmentos extraídos de outros artistas e músicas inéditas o principal componente criativo para o fortalecimento do trabalho. De fato, parte expressiva da seleção foi produzida especialmente para a passagem pela BBC. São retalhos instrumentais, batidas e vozes que surgem e desaparecem durante toda a execução do material, como um convite a se perder em um universo próprio do produtor inglês.