"Suite for Max Brown"

Ano: 2020
Selo: International Anthem / Nonesuch
Gênero: Jazz, Neo-Soul, Experimental
Para quem gosta de: Tortoise e Rob Mazurek
Ouça: Go Away e Build a Nest
Nota: 8.0

Crítica | Jeff Parker: “Suite For Max Brown”

De todo o universo de artistas que movimentaram a cena de Chicago nas últimas três décadas, Jeff Parker segue como um dos mais influentes e significativos. Conhecido pelo trabalho como integrante do Tortoise, com quem trabalhou na produção de clássicos como TNT (1998) e Standards (2001), o multi-instrumentista conta ainda com uma breve passagem por diferentes coletivos de jazz, locais além, claro, de surgir vez ou outra ao lado do versátil Rob Mazurek, com quem contribuiu para as gravações do obras como Playground (1998) e outros grandes exemplares relacionados ao projeto Chicago Underground.

Entretanto, foi em carreira solo que o músico revelou algumas de suas principais criações. São obras como o atmosférico Like-Coping (2003), trabalho em que se apoia no jazz clássico, fazendo do uso de pequenas ambientações a base para um registro que exige ser desvendado. O mesmo refinamento criativo acaba se refletindo ao longo de outros projetos assinados pelo artista. São obras como The Relatives (2005) e os ainda recentes The New Breed (2016) e The Diagonal Filter (2018) em que Parker vai do uso de arranjos atmosféricos, típicos do pós-rock, ao mais completo experimentalismo.

Interessante perceber em Suite for Max Brown (2020, International Anthem / Nonesuch), mais recente álbum de Parker em carreira solo, uma delicada síntese conceitual de tudo aquilo que o artista norte-americano tem produzido desde o início dos anos 1990. Acessível quando próximo de outros projetos assinados pelo artista, vide os improvisos no Chicago Underground, o registro estabelece pequenos respiros criativos que não apenas devem apresentar o trabalho do multi-instrumentista a uma parcela maior do público, como refletem a capacidade de seu realizador em provar de novas possibilidades e ritmos.

Exemplo disso está em After The Rain, canção que utiliza da mesma base atmosférica de obras como Structures From Silence (1984), de Steve Roach, e Old Rottenhat (1985), de Robert Wyatt, distanciando o registro dos habituais temas jazzísticos de Parker. Mesmo quando perde força, como na sequência formada por Del Rio e 3 For L, o músico se concentra na produção de um material que parece cercar o ouvinte, efeito direto do uso de sintetizadores e temas melódicos que rompem de forma significativa com o uso destacado da percussão, indicativo claro do esforço do artista em se reinventar dentro de estúdio.

Mesmo nessa clara tentativa do músico em provar de novas possibilidades, curioso perceber em faixas “tradicionais” como Go Away, Max Brown e Build a Nest, colaboração com a própria irmã, Ruby Parker, os momentos de maior destaque do disco. Parte dessa percepção vem da forma como Parker detalha cada componente de forma notável, destacando o uso da bateria, inserções percussivas e metais. Mesmo a guitarra, principal instrumento do músico, assume uma função muito mais expressiva dentro dos domínios da obra, proposta que naturalmente rompe com todo e qualquer traço de morosidade. Surgem ainda vinhetas como C’Mon Now e Lydian, Etc, canções em que o jazzista norte-americano utiliza desse curto espaço de tempo como um estímulo para o próprio fortalecimento criativo.

Inspirado de maneira confessa pela mãe do artista, homenageada logo no título da obra, Suite for Max Brown é um trabalho que joga com os instantes de forma sempre expressiva. Ainda que possa ser observado em unidade, com cada composição servindo de passagem para a faixa seguinte, a grande beleza do álbum está no isolamento de cada composição. É como se cada música entregue pelo jazzista norte-americano servisse de passagem para um novo universo criativo, conceito que tem sido testado desde a estreia com Like-Coping, mas que ganha ainda mais destaque no repertório produzido para o presente disco.