"To Love Is To Live"

Ano: 2020
Selo: Caroline International
Gênero: Rock, Art Rock, Pós-Punk
Para quem gosta de: Savages, PJ Harvey e Porridge Radio
Ouça: I’m The Man e We Will Sin Together
Nota: 8.0

Crítica | Jehnny Beth: “To Love Is To Live”

Seja em cima do palco ou em estúdio, a força criativa de Jehnny Beth é algo sempre descomunal. E isso se reflete a cada novo projeto assinado pela cantora e compositora francesa. Da estreia com o Savages, em Silence Yourself (2013), passando pelo complementar Adore Life (2016), ao trabalho com Johnny Hostile, com quem assina as canções do colaborativo John & Jehn e mantém um relacionamento desde 2006, evidente é o esforço da multiartista francesa em transformar os próprios sentimentos, dores e emoções em música, conceito que ganha ainda mais destaque no repertório do recém-lançado To Love Is To Live (2020, Caroline International).

Primeiro trabalho da artista em carreira solo, o registro que conta com co-produção de Flood (PJ Harvey, U2), Atticus Ross (Lil Nas X, Korn) e Hostile, nasce como um acúmulo das principais referências criativas e preferências da musicista. Canções que atravessam o pós-punk inglês da década de 1980, apontam para o rock alternativo dos anos 1990 e seguem em meio a experimentações eletrônicas que ora convidam o ouvinte a dançar, ora se entregam à atmosfera caótica de nomes como Nine Inch Nails. Uma obra de possibilidades, como se Beth testasse os próprios limites dentro de estúdio.

Uma das primeiras composições do disco a serem apresentadas ao público, a intensa I’m The Man talvez seja a principal representação de tudo aquilo que Beth busca desenvolver em To Love Is To Live. Criada em parceria com Ross e Hostile, a canção ganha forma em meio a pequenos blocos criativos que transportam a obra da musicista para diferentes direções. São guitarras turbulentas, ruídos eletrônicos e instantes de breve respiro, proposta que ganha ainda mais destaque na poesia firme da cantora. “Eu sou o homem / Fodo com tudo que posso / Porque eu sou o homem“, provoca.

A mesma força criativa acaba se refletindo em outros momentos ao longo da obra. É o caso da também conhecida Heroine, canção que transita por entre gêneros, prova de ambientações jazzísticas e encontra na bateria destacada um complemento natural aos versos compartilhados por Beth. Difícil não lembrar do som produzido por PJ Hardvey, uma das principais referências da artista, no hoje clássico Is This Desire? (1998). Do flerte com a produção eletrônica ao peso das guitarras, também evidente em How Could You, parceria com Jon Talbot, vocalista do Idles, tudo parece apontar para o som incorporado pela veterana do rock inglês na segunda metade dos anos 1990.

Entretanto, assim como nas composições do Savages, a grande beleza do trabalho de Beth está na capacidade da artista em alternar entre momentos de maior explosão e criações deliciosamente sensíveis. Vem justamente desse segundo grupo bloco de canções o estímulo para preciosidades como French Countryside. Faixa que mais se distancia do restante da obra, a composição ganha forma em meio a pianos atmosféricos, vozes tratadas como instrumentos e instantes de profunda entrega sentimental. Mesmo Flower, com suas ambientações eletrônicas, no melhor estilo Fever Rey, evidencia momentos de maior calmaria, conceito também explícito em We Will Sin Together, com uma das melhores letras da cantora.

Repleto de participações especiais, como o ator Cillian Murphy, em A Place Above, o produtor Adam Bartlett (The Wombats, Ed O’Brian), em The Rooms, e Romy Madley Croft (The xx), nos versos da já citada French Countryside, To Love Is To Live mostra a busca de Jehnny Beth por novas possibilidades, porém, preservando tudo aquilo que a cantora tem produzido desde o início da carreira. Do momento em que tem início, na afirmativa I Am, até alcançar a derradeira Human, cada composição do disco aponta para uma direção diferente, proposta que torna a experiência de ouvir o trabalho tão desafiadora quanto gratificante.