"Jeremaia"

Ano: 2019
Selo: Independente
Gênero: Indie Rock, Rock Alternativo
Para quem gosta de: Boogarins e Catavento
Ouça: Tanto Faz e No Que Vai Dar
Nota: 8.3

Crítica | “Jeremaia”, Jeremaia

Estranho, porém, difícil de ser ignorado. Essa talvez seja a melhor forma de traduzir o som incorporado por André Faria, vocalista e um dos principais articuladores Aldo, The Band, no primeiro álbum em carreira solo. Com produção assinada em parceria com o próprio irmão, o músico Murilo Faria, o registro que leva o título de Jeremaia (2019, Independente), mesmo nome escolhido para o projeto, mostra um artista de essência versátil, por vezes, delirante. Composições que apontam para diferentes campos da música, como se cada fragmento do registro transportasse o ouvinte para dentro de um universo completamente novo.

Não por acaso, Faria escolheu a versátil O Trabalho da Rua Mato Grosso como faixa de abertura do disco. Concebida em pequenas doses, a canção se espalha em meio a guitarras carregadas de efeitos e sintetizadores borbulhante, estrutura que sintetiza parte da sonoridade incorporada pelo artista e seus parceiros de estúdio, entre eles, o baterista Daniel Setti (ex-Jumbo Elektro). Nos versos, memórias entristecidas e versos descritivos, componente fundamental para o crescimento da obra. “O que era tão bonito / amaldiçoado agora está“, canta enquanto paredões de ruídos encolhem e crescem a todo instante, reforçando a dramaticidade em torno da canção.

O mesmo direcionamento incerto se faz evidente em No Que Vai Dar. São texturas eletrônicas, a linha de baixo destacada e pequenas variações estéticas que servem de complemento à poesia existencialista de Faria. Pouco mais de três minutos em que o músico paulistano convida o ouvinte a se perder em um território marcado pela lisergia das formas instrumentais. Um som deliciosamente torto, proposta que assume novo e delicado enquadramento na base cíclica, pianos e vozes da canção seguinte, Um Novo Dia, música de essência contida, como uma parcial fuga do som produzido para o restante da obra.

Na sequência formada por Tem Que Correr e Tanto Faz, um regresso ao mesmo ambiente caótico que embala as primeiras canções do disco. Da construção das batidas ao uso insano das guitarras, perceba como Faria brinca com a experiência do ouvinte. São colagens instrumentais que atravessam o rock alternativo da década de 1990 para dialogar com a neo-psicodelia de nomes como The Flaming Lips, estrutura que ganha ainda mais destaque na incerteza de Vai e Vem. Inaugurada em meio a reverberações tropicais no melhor estilo El Guincho, a canção lentamente se perde em um labirinto de cores e distorções, arrastando o público para dentro do núcleo da obra.

Tamanho descontrole força um instante de breve respiro na atmosférica Saga da Metralhadora, sétima faixa do disco. Da composição da batidas, passando pelo uso contido das guitarras e vozes pontuais, Faria parece resgatar parte do material originalmente testado na também serena Um Novo Dia. A diferença está na forma como o músico paulistano desacelera de forma ainda mais explícita, encaixando cada fragmento da canção em uma medida própria de tempo.

Escolhida para o encerramento do disco, Maníaco da Linha do Trem não apenas expande o lado mais inventivo da obra, como revela algumas das principais referências criativas de Faria. São versos descritivos, urbanos, como uma tentativa clara do músico em dialogar com a obra de veteranos da literatura brasileira, caso de Dalton Trevisan e Rubem Fonseca. O resultado desse precioso cruzamento de ideias está na produção de um obra conceitualmente ampla e caótica, proposta que ultrapassa os limites dos arranjos e versos e segue até a imagem de capa e fina identidade visual concebida para o trabalho.



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