"All The Time"

Ano: 2020
Selo: Hyperdub
Gênero: Eletrônica, R&B, Techno Pop
Para quem gosta de: Kelela, Kelly Lee Owen e Tirzah
Ouça: Anyone Around e Lick In Heaven
Nota: 8.0

Crítica | Jessy Lanza: “All The Time”

Jessy Lanza nunca prometeu nada além de uma bem-resolvida soma de batidas secas, loops e sintetizadores deliciosamente inspirados pelo pop dos anos 1980. Da estreia, com Pull My Hair Back (2013), passando pelo amadurecimento criativo, em Oh No (2016), cada novo registro entregue pela cantora, compositora e produtora canadense convida o ouvinte a revisitar o passado, porém, longe de uma estrutura caricata. Canções que evocam a obra de veteranos como Janet Jackson e Timbaland, mas que em nenhum momento sufocam a identidade criativa que define o trabalho da artista original da cidade de Hamilton, no Canadá.

É justamente dentro desse mesmo território criativo que Lanza apresenta ao público o terceiro e mais recente álbum de estúdio da carreira: All The Time (2020, Hyperdub). Em produção desde o último ano, o trabalho que conta com a breve interferência do produtor Jeremy Greenspan (Junior Boys), parceiro de longa data da cantora, ganha forma em meio a pequenas repetições, retalhos de vozes exploradas como instrumentos e momentos de doce melancolia e confissão romântica, conceito que orienta a experiência do ouvinte até a autointitulada música de encerramento.

Com base nessa estrutura, Lanza divide o disco em duas porções bastante claras. De um lado, faixas como a introdutória Anyone Around e Lick In Heaven, composições que representam o lado mais acessível do álbum. Instantes em que a produtora canadense dialoga com a obra de contemporâneas como Kelela e Tirzah, porém, fazendo do lirismo intimista detalhado nos versos um precioso elemento separação. “Não posso prever / Eu vou agir em vez de parecer fofa / Eu mantenho o foco / Em mim, como qualquer coisa“, canta em um misto de tristeza e raiva, sempre ancorada em elementos que refletem a incerteza das relações humanas.

Já o segundo bloco de canções, representado por faixas como Face e Ice Creamy, reflete o lado mais aventureiro e musicalmente inventivo da obra. Da construção das batidas, sempre marcadas pelo uso de captações sampleadas, passando pelo tratamento inexato dado aos sintetizadores, tudo soa como uma desconstrução do material que Lanza tem produzido desde a estreia com Pull My Hair Back. Instantes em que a produtora canadense brinca com a fragmentação das ideias, vai do R&B ao techno em uma linguagem sempre inexata, proposta que acaba se refletindo em outros momentos ao longo do trabalho.

Entretanto, a grande beleza de All The Time, assim como nos dois trabalhos que o antecedem, está justamente no equilíbrio entre esses dois universos. Canções que preservam a doçura da artista canadense, porém, se permitem transitar em meio a formas irregulares, batidas e melodias pouco convencionais. É o caso da própria faixa-título do álbum. Dividida entre a leveza e a experimentação, a música reflete o que há de mais interessante no som produzido por Lanza. Um delicado exercício criativo, estímulo para a formação de músicas como Over and Over e Badly, essa última, marcada pela riqueza dos detalhes e colorida sobreposição de ideias.

Feito para ser revisitado, como tudo aquilo que Lanza tem produzido desde os primeiros registros autorais, All The Time mostra uma artista em pleno domínio da própria obra. Da utilização das batidas e temas instrumentais à completa vulnerabilidade explícita na formação dos versos, tudo gira em torno de um universo próprio da artista canadense. Um misto de conforto e permanente descoberta, estrutura que embala a experiência do ouvinte tão logo o disco tem início, em Anyone Around, passa por preciosidades como Lick In Heaven e Face, e segue até o último instante do trabalho.