"Tempo Sem Tempo"

Ano: 2020
Selo: YB Music
Gênero: Experimental, Jazz, MPB
Para quem gosta de: Thiago França e Quartabê
Ouça: O Barco, Tempo Sem Tempo e Jóia
Nota: 8.0

Crítica | Joana Queiroz: “Tempo Sem Tempo”

O movimento ruidoso das teclas, o sopro abafado, quase sem forma, e a captação crua, como se um clarinete fosse mastigado em nossos ouvidos. Com a escolha de O Barco como faixa de abertura em Tempo Sem Tempo (2020, YB Music), Joana Queiroz sutilmente apresenta todas as regras – ou não regras –, do quarto e mais recente álbum de estúdio em carreira solo. Canções que vão do jazz ao samba em uma linguagem sempre inexata, torta, como uma extensão natural de tudo aquilo que a musicista tem produzido em seus últimos registros autorais, caso de Boa Noite Pra Falar Com o Mar (2016), Diários de Vento (2016) e Uma Maneira de Dizer (2012).

Conhecida pelo trabalho como integrante do coletivo Quartabê, com quem lançou há dois anos o delicado Lição #2: Dorival (2018), além de colaborar com nomes como Hermeto Pascoal, Arrigo Barnabé e Gilberto Gil, Queiroz transporta para dentro de estúdio parte da essência marítima do repertório apresentado ao lado de Maria Beraldo, Mariá Portugal e Rafael Montorfano. São canções sempre misteriosas que parecem acompanhar o movimento das ondas, crescendo e encolhendo em uma medida própria de tempo. Um lento desvendar de ideias, ritmos e experiências sensoriais que parecem dançar na cabeça do ouvinte.

Exemplo disso ecoa com naturalidade na própria faixa-título do disco, uma releitura da obra de José Miguel Wisnik e Jorge Mautner. Inaugurada em meio a captações mundanas, diálogos e ruídos aleatórios, a canção estabelece nessa ausência de pressa um estímulo para a inserção de cada novo elemento. São frações instrumentais que se projetam de forma ondulada, revelando e ocultando pequenos detalhes a todo instante. Um exercício minucioso que se completa pela voz cristalina de Queiroz, como um ponto de refúgio nesse cenário marcado pela criativa sobreposição dos elementos. “Vê se encontra um tempo / Pra me encontrar sem contratempo / Por algum tempo“, canta.

O mesmo esmero e completa ausência de pressa no processo de composição da obra ecoa com naturalidade na adaptação de Jóia, um dos clássicos de Caetano Veloso. Partindo da voz duplicada de Queiroz, a canção mergulha em um território quase ritualístico, forte, efeito direto da percussão tribal detalhada por Domenico Lancellotti. Mesmo Seu Olhar, música originalmente apresentada por Gilberto Gil em Dia Dorim, Noite Neon (1985), um dos trabalhos mais significativos do músico baiano na década de 1980, ganha novo significado dentro do contexto do disco. Sopros e melodias sintéticas que mais parecem levantar perguntas do que garantir respostas.

Dos poucos momentos em que perverte essa arquitetura serena, Queiroz se permite avançar dentro de estúdio. É o caso de Cidade. Completa pelo pandeiro de Sergio Krakowski, a faixa segue em uma espiral de sopros, ruídos eletrônicos e texturas delirantes. Um turbilhão contido, porém, capaz de brincar com a interpretação do ouvinte, arremessado de um canto a outro da canção. É somente com a chegada da atmosférica Beira de Rio, Beira de Mar que o disco volta a seu estado natural. Instantes em que a musicista preserva e perverte a própria identidade criativa, mergulhando em um pop cósmico que ainda serve de preparativo para a já citada Jóia.

Feito para ser revisitado, Tempo Sem Tempo é o típico caso de um trabalho que parece maior a cada nova audição. Canções como O Barco, Memórias e Dois Litorais, essa última, composta por Mariá Portugal, em que Queiroz e o co-produtor Bruno Qual, responsável pelas texturas e processamentos em parte expressiva das faixas, parecem condensar diferentes obras dentro de um curto intervalo de tempo. Um olhar curioso para o passado, efeito direto do fino repertório selecionado pela musicista, mas que em nenhum momento deixa de apontar para o futuro, tratamento evidente na base eletrônica, loops e ambientações sintéticas que tingem com novidade cada fragmento do disco.