"Estreite"

Ano: 2020
Selo: Joia Moderna
Gênero: MPB, Indie, Alternativa
Para quem gosta de: Ava Rocha e Luedji Luna
Ouça: Anos Incríveis e Estreite
Nota: 7.8

Crítica | Josyara & Giovani Cidreira: “Estreite”

A colorida sobreposição de corpos que estampa a imagem de capa de Estreite (2020, Joia Moderna), bem-sucedido encontro entre Josyara e Giovani Cidreira, funciona como um indicativo da forte aproximação criativa entre a dupla baiana. Ideias que se entrelaçam de forma sempre precisa, detalhista, como fragmentos de um mesmo bloco de experiências sentimentais, sonoras e líricas. Canções concebidas a partir de poemas de amor, medos e conflitos existencialistas que se espalham em uma cama de formas econômicas, como se cada fragmento do disco fosse observado de maneira independente, valorizando cada elemento destacado no decorrer da obra.

Perfeita representação desse resultado ecoa com naturalidade logo nos primeiros minutos do disco, na introdutória Palma. Da construção das batidas, ainda íntimas do material entregue no experimental Mix$take (2019), último registro de Cidreira, passando pela guitarra atmosférica de Josyara, fruto do som incorporado em Mansa Fúria (2018), tudo soa como um perfeito ponto de equilíbrio entre as ideias compartilhadas pela dupla baiana. Um misto de passado e presente, troca e reinterpretação, conceito que se reflete até a faixa de encerramento do disco, a densa Farol.

Claro que esse propositado compartilhamento de experiências não interfere na produção de músicas que valorizem cada colaborador de maneira isolada. Exemplo disso está em Molha, segunda faixa do disco. Enquanto os versos da canção partem de metáforas que relacionam corpo e natureza de forma sempre sensível (“Você vai chover no deserto dos meus olhos / E se vai chover / Molho“), base para grande parte das canções apresentadas em Mansa Fúria, musicalmente, a composição vai do experimentalismo eletrônico ao uso de ritmos regionais, conceito reforçado em alguns dos registros mais recentes da artista, como a também colaborativa Iara Correnteza.

Do lado de Cidreira, vem as duas metades de Meninas Irmãs. São pouco mais de seis minutos em que o músico de Salvador parece brincar com a colisão de ruídos eletrônicos, samples e vozes tratadas de forma sempre instrumental, como uma sequência direta do som testado há poucos meses na parceria com Benke Ferraz. Instantes de doce experimentação, estrutura que se completa pela interferência direta do produtor Junix 11, parceiro da dupla durante toda a execução da obra, vide a colorida sobreposição de ritmos e ambientações sintéticas em Virá, faixa que parece saída de algum disco do BaianaSystem, banda do qual o artista faz parte.

Entretanto, é justamente quando a dupla atua de maneira colaborativa que o trabalho alcança sua melhor forma. É o caso de Anos Incríveis. Com letra compartilhada do primeiro ao último instante, a canção encontra na lenta sobreposição dos versos a passagem para uma das composições mais sensíveis de Cidreira e Josyara. “Toda foda é justa / Quando existe o coração / Eu que não duvido / Precisar de alguém, ser de alguém / E você deixou / É bem por aí / Nada permanecerá inteiro“, cresce o coro de vozes enquanto melodias acústicas se espalham em uma medida própria de tempo, sem pressa, valorizando cada fragmento poético que chega até os ouvidos do público.

De essência documental, como tudo aquilo que define outros exemplares recentes da série Joia Ao Vivo, projeto idealizado por DJ Zé Pedro e Marcio Debellian para o selo Joia Moderna, Estreite encontra na leveza dos arranjos e vozes a base para grande parte das canções. Trata-se de um refúgio temporário, como um espaço colaborativo onde Josyara e Cidreira se encontram para compartilhar inquietações, sentimentos e momentos de evidente melancolia. Um exercício que preserva parte da identidade criativa de cada realizador, porém, encontra nessa delicada convergência de ideias o estímulo para um material parcialmente novo.