"Bubba"

Ano: 2019
Selo: RCA / Kaytranada Ent.
Gênero: Eletrônica, Dance, R&B
Para quem gosta de: The Internet e Anderson .Paak
Ouça: 10% e Need It
Nota: 7.8

Crítica | Kaytranada: “Bubba”

Prever a direção seguida em Bubba (2019, RCA / Kaytranada Ent.), segundo e mais recente álbum de estúdio de Kaytranada, está longe de parecer um tarefa simples. Longe do imediatismo evidente no antecessor 99.9% (2016), trabalho que revelou preciosidades como Weight Off, com BadBadNotGood, e Lite Spots, marcada por fragmentos de Pontos De Luz, da cantora Gal Costa, o produtor canadense parece seguir o caminho oposto, investindo na composição de um registro que exige tempo até ser desvendado. Canções marcadas pelo minimalismo dos elementos e permanente quebra rítmica, conceito que orienta a experiência do ouvinte até o último instante da obra.

É justamente essa incerteza e parcial desequilíbrio criativo que orienta toda a sequência de abertura do álbum. São cinco composições — Do It, 2 The Music, Go DJ, Gray Area e Puff Lah —, em que Kaytranada busca se encontrar dentro de estúdio, testando diferentes fórmulas, melodias e ritmos que vão do R&B dos anos 1980, como na parceira com Iman Omari, às pistas, vide a bem sucedida colaboração com SiR. Frações poéticos e instrumentais que mudam de direção a todo instante, tornando a experiência do ouvinte inicialmente confusa.

Interessante perceber em 10%, reencontro com Kali Uchis, um evidente ponto de equilíbrio e passagem para o lado mais coeso da obra. São pouco mais de três minutos em que o produtor canadense sutilmente amplia a essência melódica detalhada em 99.9%. “Por que você tenta mentir para eles? / Fingindo quem você é / Você está tentando demais / O ego não é seu amigo“, cresce a letra da canção enquanto uma linha de baixo suculenta se espalha em meio a sintetizadores coloridos e uma base percussiva sempre detalhista, trazendo para dentro do disco a mesma atmosfera tropical de Isolation (2018), álbum de estreia da cantora e compositora colombiana.

A partir desse ponto, Bubba não apenas se transforma, como faz de cada composição um estímulo para a faixa seguinte. E isso se reflete com naturalidade na forma como Kaytranada costura sintetizadores, batidas e vozes de forma sempre complementar, fazendo da sequência composta pela quente Need It, parceria com Masego, Taste, encontro com a dupla VanJess, e Oh No, colaboração com a britânica Estelle, uma faixa única. Mesmo o breve respiro gerado pela parceria com a conterrânea Charlotte Day Wilson, em What You Need, em nenhum momento se distancia do som retro-futurista que orienta a segunda metade do trabalho.

Mesmo imerso nesse cenário de pequenas colaborações e encontros com parceiros de longa data, interessante perceber em Scared To Death, faixa assumida individualmente pelo produtor, um dos momentos de maior acerto da obra. São pouco menos de três minutos em que o artista canadense parece confessar algumas de suas principais influências, indo do funk futurístico que marca o trabalho do Daft Punk ao delírio psicodélico de nomes como Neon Indian e Toro Y Moi. Um colorido catálogo de ideias e referências criativas que ainda servem de passagem para o encerramento da obra.

Menos urgente em relação ao bloco central do trabalho, Bubba revela em seu fechamento desde músicas que parecem resgatadas de alguma estação de rádio dos anos 1970, como em Frefall, com Durand Bernarr, até faixas marcadas pelo completo refinamento das batidas e temas eletrônicos, marca da agridoce The Worst In Me, colaboração com Tinashe. Nada que se compare ao material entregue na derradeira Midsection. Concebida em parceria com Pharrell Williams, a canção transita de forma curiosa por entre gêneros, sempre imprevisível, fazendo desse resumo criativo do álbum um precioso regresso ao início do obra.