"Inner Song"

Ano: 2020
Selo: Smalltown Supersound
Gênero: Eletrônica, Techno, Dream Pop
Para quem gosta de: Jon Hopkins e Four Tet
Ouça: Night, Melt! e L.I.N.E.
Nota: 8.5

Crítica | Kelly Lee Owens: “Inner Song”

Sonho e realidade se confundem a todo instante nas canções de Inner Song (2020, Smalltown Supersound). Segundo e mais recente trabalho de estúdio da cantora, compositora e produtora britânica Kelly Lee Owens, o sucessor do homônimo debute entregue há três anos alcança um ponto de equilíbrio entre as pistas e o lado contemplativo da artista original de Rhuddlan, no País de Gales. São composições que preservam a essência etérea detalhada em músicas como CBM, Anxi. e Keep Walking, porém, partindo de um novo direcionamento estético, estrutura que se reflete não apenas no tratamento dado aos sintetizadores e batidas, como na construção dos versos e uso minucioso das vozes que ganham forma em grande parte das canções.

Obra de imersão, como tudo aquilo que Owens tem produzido desde o primeiro trabalho de estúdio, Inner Song, como o próprio título aponta, é um registro que exige tempo e dedicação até se revelar por completo. São canções ancoradas em temáticas existencialistas, a permanente busca por um novo amor, abandono e solidão. Exemplo disso acontece logo nos primeiros minutos do álbum, em On, música inspirada pelo falecimento precoce de Keith Flint (1969 – 2019), integrante do The Prodigy, me que discute a inevitável passagem do tempo e a permanente relação de qualquer indivíduo com a morte.

São sentimentos sempre contrastantes. Canções que vão do completo recolhimento à busca por um repertório libertador. Perfeita representação desse resultado ecoa com naturalidade na sequência composta por Jeanette e L.I.N.E. Pouco mais de dez minutos em que Owens se entrega à produção de uma faixa puramente dançante, lembrando o recente encontro com Jon Hopkins, em Luminous Spaces, para mergulhar em um pop atmosférico, proposta que aponta para Robyn nos momentos mais sutis de Honey (2018). “O amor não é suficiente para ficar / Eu prefiro ficar sozinho“, confessa enquanto camadas de sintetizadores se revelam ao público e pequenas doses, cercando e confortando o ouvinte.

Claro que isso está longe de parecer uma surpresa para quem há tempos acompanha o trabalho da produtora. Observado de forma atenta, são esses mesmos contrastes que embalam a experiência do ouvinte em grande parte do repertório entregue no disco anterior. A diferença está na forma como Owens se permite avançar criativamente, provando de novas possibilidades dentro de estúdio. Exemplo disso acontece em Melt. Primeira composição do disco a ser apresentada ao público, a faixa concebida a partir do som de geleiras derretendo reflete o lado político da artista, fazendo desse pano de fundo conceitual um importante componente de transformação. Mesmo Corner Of My Sky, parceria com John Cale, do The Velvet Underground, evidencia o desejo em provar de uma sonoridade cada vez mais segura.

Interessante notar que mesmo pontuado por momentos de maior experimentação, Inner Song em nenhum momento se distancia de um repertório acessível. É o caso da sequência de fechamento do disco. Do momento em que tem início, nas batidas de Night, passando pela lenta sobreposição de Flow ao direcionamento etéreo de Wake-Up, perceba como a artista britânica parece acolher o ouvinte, confortado em meio a sintetizadores delicados, versos confessionais e ambientações sempre precisas. Mesmo a interpretação torta de músicas como Melt! e Jeanette em nenhum momento ultrapassam um limite pré-definido pela artista, preservando o aspecto convidativo que tradicionalmente define as criações de Owens.

Tamanho esmero garante ao público uma obra que amplia de forma significativa tudo aquilo que Owens tem produzido desde os primeiros registros autorais. Estão lá as habituais vozes etéreas e sintetizadores cósmicos, porém, sempre pontuados pela inserção de batidas inexatas e diálogos com diferentes campos da música, como se cada fragmento do disco transportasse o ouvinte para um território completamente distinto. Instantes em que a produtora britânica mergulha fundo nas próprias inquietações, medos e desilusões, porém, mantém firme o diálogo com as pistas, indicativo da produção segura que orienta a formação do álbum durante toda sua execução.



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