"Rastilho"

Ano: 2020
Selo: Independente
Gênero: Experimental, Samba, Folk
Para quem gosta de: Rodrigo Campos e Metá Metá
Ouça: Olodé e Veneno
Nota: 8.8

Crítica | Kiko Dinucci: “Rastilho”

Quem canta é a madeira“. A frase extraída do texto de apresentação de Rastilho (2020, Independente), segundo álbum de Kiko Dinucci em carreira solo, funciona como um indicativo claro do caminho percorrido pelo músico paulistano durante toda a execução da obra. Livre da urgência, personagens escusos e ambientações urbanas que marcam as canções do antecessor Cortes Curtos (2017), o guitarrista do Metá Metá e colaborador de nomes como Elza Soares e Jards Macalé passeia em meio fórmulas pouco usuais e paisagens sertanejas, fazendo do violão solitário e lirismo psicodélico das vozes ecoadas a ponte para um universo fantástico, como um refúgio conceitual que costura passado e presente de forma sempre delirante.

Não por acaso, Dinucci escolheu a instrumental Exu Odara como música de abertura do disco. De essência atmosférica, a faixa aponta a direção seguido durante toda a produção do trabalho. São movimentos sempre calculados do violão, como se cada nota disparado pela mão direita do artista arrastasse o ouvinte para o núcleo da obra. Exemplo disso está na sertaneja Marquito, composição que une forma e movimento de maneira detalhista, gerando a imagem de um ambiente árido, como um passeio pelo sertão nordestino, experiência que se reflete até o último instante do disco.

Parte dessa estrutura vem do confesso desejo do artista em resgatar a essência de diferentes exemplares do cinema nacional, dando novo significado ao direcionamento estético testado em Cortes Curtos. “Eu tava a fim daquele som do Sergio Ricardo na trilha do Deus e o Diabo Na Terra Do Sol, do Glauber Rocha, aqueles ecos que também estão no Geraldo Vandré de Requiém Para Matraga que estão no filme Bacurau, do Kleber Mendonça e Juliano Dornelles, e originalmente no filme A Hora e a Vez de Augusto Matraga, do Roberto Santos“, respondeu em entrevista ao Trabalho Sujo. De fato, do momento em que tem início, na já citada Exu Odara, até alcançar a autointitulada faixa de encerramento, tudo se projeta de forma cênica, estabelecendo uma estranha narrativa cinematográfica que parece picotada na cabeça do ouvinte.

São ambientações que surgem e desaparecem, personagens misteriosos e instantes de breve silenciamento, como a trilha sonora para um filme imaginário. Canções que não apenas refletem o interesse do artista em estreitar a relação com algumas de suas principais referências criativas, como em revisitar a própria obra. Perfeita representação desse resultado está na releitura de Tambú e Candongueiro, música lançada como parte do álbum Pastiche Nagô (2008), parceria entre o guitarrista paulistano e o Bando Afromacarrônico, mas que se completa pela ambientação caseira do presente disco. Mesmo Vida Mansa, samba originalmente apresentado na voz de Ciro Monteiro (1913 – 1973), assume novo enquadramento, fazendo das vozes complementares de Dulce Monteiro, Maraísa, Gracinha Menezes e Juçara Marçal um estímulo para a canção seguinte, a também nostálgica Foi Batendo o Pé Na Terra.

Dentro desse cenário marcado pela incerteza das fórmulas instrumentais, vide preciosidades como Olodé e a descritiva Febre do Rato, Dinucci estabelece pequenas brechas para a chegada de diferentes colaboradores. São nomes como Ava Rocha, com quem divide a experimental Dadá, e Rodrigo Ogi, no repente de Veneno, que sutilmente ampliam os limites da obra. Canções que preservam a essência regionalista do álbum, porém, acabam encontrando no uso de pequenas rupturas conceituais o estímulo para um novo resultado, como se diferentes exemplares fossem encaixados dentro de um único registro.

Interessante perceber tamanha riqueza de detalhes mesmo na entrega de um registro estruturalmente conciso, rápido. São pouco mais de 30 minutos em que Dinucci vai do violão de Baden Powell e Rosinha de Valença ao resgate nostálgico de diferentes obras do cinema nacional, jogando com a experiência do ouvinte durante toda a execução do álbum. Mesmo a imagem de capa do disco, trabalho que conta com a assinatura do fotógrafo Pablo Saborido, perverte as ilustrações que tradicionalmente estampam os lançamentos do músico paulistano. Um exercício de preservar e perverter a própria identidade criativa, proposta que torna a experiência de mergulhar nas canções de Rastilho tão gratificante.