"No Home Record"

Ano: 2019
Selo: Matador
Gênero: Experimental, Noise Rock
Para quem gosta de: Sonic Youth e St. Vincent
Ouça: Hungry Baby e Cookie Butter
Nota: 8.0

Crítica | Kim Gordon: “No Home Record”

Como integrante do Sonic Youth, Kim Gordon passou mais de três décadas se revezando na produção de um material essencialmente provocativo, torto. Entretanto, foi no paralelo Free Kitten, com quem lançou quatro álbuns de estúdio — Unboxed (1994), Nice Ass (1995), Sentimental Education (1997) e Inherit (2008) —, e outras colaborações esporádicas, como no Body/Head e Glitterbust, que a cantora e compositora norte-americana pareceu de fato à vontade, testando os próprios limites dentro de estúdio. Ideias trabalhadas de forma sempre irregular, direcionamento que alcança novo resultado nas canções de No Home Record (2019, Matador).

Primeiro álbum de Gordon em carreira, o trabalho que conta com co-produção assinada por Justin Raisen (Sky Ferreira, Charli XCX), mostra a clara tentativa da artista em se reinventar criativamente, transitando por entre gêneros e instantes de puro experimentalismo, como se a cantora e compositora norte-americana testasse os próprios limites. Da abertura do disco, na atmosférica Sketch Artist, até alcançar a derradeira Get Yr Life Back, perceba como a musicista brinca com a desconstrução dos elementos, fazendo dessa ruptura estética a única garantia de certeza para o ouvinte.

Não por acaso, Gordon fez de Murdered Out o primeiro grande lançamento relacionado ao trabalho. Originalmente entregue ao público há três anos, quando o disco ainda vivia em sua fase embrionária, a canção preserva a essência ruidosa que marca as antigas criações da artista nova-iorquina, porém, partindo de um novo direcionamento temático. São guitarras, batidas e vozes semi-declamadas que se projetam de forma irregular, estímulo para a composição dos versos, sempre descritivos, como se a artista partisse de observações atentas sobre a cidade de Los Angeles para refletir sobre as próprias inquietações.

De fato, No Home Record é um álbum inteiro sobre isso: a interpretação desconfortável, por vezes cínica, de Gordon sobre a nossa sociedade, novas formas de comportamento e consumo. Exemplo disso está no direcionamento caótico que toma conta de Air BnB, segunda faixa do disco. São pouco mais de quatro minutos em que a cantora utiliza de frases típicas do aplicativo de hospedagem para discutir a plasticidade simulada desse universo. São versos que discutem o permanente distanciamento entre os indivíduos, conceito que ganha ainda mais destaque na poesia robótica e minimalismo de Cookie Butter. “Eu acordo / Eu gostaria / Eu tenho / Eu vi / Eu me aproximo / Eu fodo“, canta.

Dos poucos momentos em que perverte essa relação com o ambiente que a cerca, Gordon utiliza de experiências particulares, medos e delírios pessoais como um estímulo natural para a composição dos versos. É o caso da turbulenta Hungry Baby, canção em que trata da própria sexualidade e outros conflitos intimistas de forma deliciosamente suja, lembrando os momentos de maior instabilidade do Sonic Youth. A própria faixa de abertura do disco, Sketch Artist, mesmo contida em relação ao restante da obra, funciona como um passeio pela mente inquieta da artista, apontando a direção seguida no restante do trabalho.

Movido pela incerteza, No Home Record joga com a experiência do ouvinte durante toda a execução do trabalho. São maquinações eletrônicas, guitarras carregadas de efeitos e a voz tratadas de forma turbulenta, como se a artista assumisse diferentes identidades criativas a cada nova composição do disco. Claro que isso não interfere na produção de faixas minimamente acessíveis, como as já citadas Hungry Baby e Murdered Out. Instantes em que Gordon não apenas resgata uma série de elementos que a fizeram conhecida, como avança criativamente, fazendo dessa completa imprevisibilidade o principal componente para o fortalecimento da obra.



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