"Saints and Sebastian Stories"

Ano: 2019
Selo: Cascine / Su Tissue
Gênero: R&B, Indie Pop, Soul
Para quem gosta de: Rhye e London Grammar
Ouça: Talevision Land e Baby Hallelujah
Nota: 7.5

Crítica | Konradsen: “Saints and Sebastian Stories”

Fragmentos de vozes, ambientações minimalistas e instantes doce contemplação. Em Saints and Sebastian Stories (2019, Cascine / Su Tissue), primeiro álbum de estúdio da dupla norueguesa Konradsen, cada elemento do registro parece tratado de forma detalhista, revelando ao público uma obra que parece maior e mais complexa a cada nova audição. Um lento desvendar de ideias e experiências sentimentais que transita por entre gêneros, costura diferentes décadas e tendências sem necessariamente aportar em um território específico, como se cada composição do disco apontasse para uma direção diferente.

E isso se reflete com naturalidade logo nos primeiros minutos do disco, na delicada Never Say A. Do uso atmosférico dos sintetizadores detalhados por Eirik Vildgren à voz andrógina de Jenny Sabel, lembrando Frank Ocean em Blonde (2016), perceba como tudo se revela ao público em uma medida própria de tempo. São variações instrumentais que vão do R&B ao experimentalismo eletrônico de forma sempre particular, direcionamento que acaba se refletindo durante toda a execução da obra, como a passagem para um universo próprio da dupla de Oslo.

Pontuado pela inserção de vozes e captações caseiras extraídas de antigas fitas VHS, Saints and Sebastian Stories é uma obra que naturalmente exige tempo até se revelar por completo para o ouvinte. São melodias compactas e vozes tratadas como instrumentos, estrutura que parece pensada para confortar e, ao mesmo tempo, brincar com a experiência do ouvinte. Exemplo disso ecoa com naturalidade na existencialista Talevision Land. São ambientações contidas, ruídos e pequenas sobreposições que contribuem para a letra melancólica da canção, lembrando o Rhye no também delicado Woman (2013).

Em Baby Hallelujah, sexta faixa do disco, a mesma riqueza na composição dos detalhes. Do uso remodelado da voz, estrutura que naturalmente aponta para os primeiros trabalhos de James Blake, passando pela inserção de pianos, vozes e captações caseiras, cada fragmento da canção indica o completo esmero da dupla norueguesa. São colagens instrumentais que vão de pequenas orquestrações ao reducionismo típico de nomes como London Gramar, leveza que ganha ainda mais destaque em No One Ever Told Us, música que se abre para a inserção de metais e ambientações sensíveis.

Dos poucos momentos em que perverte essa estrutura, como na curtinha Warm Wine, é a voz de Vildgren que ganha destaque, distanciando o ouvinte do restante da obra. Surgem ainda composições como a delicada Odd Mistake, faixa que segue em uma estrutura convencional, revelando melodias detalhistas e instantes de profunda comoção. Nada que se compare ao doce delírio de músicas como a derradeira Written to the Others e Give, canções que parecem saídas de alguma disco recente do Bon Iver, efeito direto da criativa colisão de ideias que vai do folk torto ao R&B.

Completo pela poesia introspectiva de Sabel, o registro alterna entre momentos de doce experimentação e faixas deliciosamente acessíveis, como se a dupla norueguesa jogasse com os instantes. São retalhos instrumentais e poéticos que se espalham em uma medida própria de tempo, sem pressa, revelando o extenso repertório que os dois artistas tem compilado há mais de uma década, quando se conheceram. Um ambiente tão convidativo como conceitualmente restrito, proposta que faz de Saints and Sebastian Stories um trabalho precioso, feito para ser desvendado pelo ouvinte.



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