"Disco"

Ano: 2020
Selo: Darenote / BMG
Gênero: Pop, Dance, Disco
Para quem gosta de: Jessie Ware e Róisín Murphy
Ouça: Say Something e Magic
Nota: 6.5

Crítica | Kylie Minogue: “Disco”

Inspirada pela produção e a estética dos anos 1970, Kylie Minogue decidiu mergulhar nas pistas de dança. Longe da temática sertaneja que embala as canções apresentadas em Golden (2018), a artista de Melbourne, na Austrália, voltou olhos e ouvidos para as criações de veteranos como Donna Summer, Chic e Gloria Gaynor, estímulo para o fino repertório que abastece o referencial Disco (2020, Darenote / BMG). São composições que rapidamente conduzem o ouvinte em direção ao passado, resgatando a atmosfera noturna de clubes como o Studio 54, mas que invariavelmente levantam a questão: existe algo de genuíno e autoral nesse processo ou tudo não passa de nostalgia barata?

Entregue ao público em um ano repleto de grandes lançamentos também marcados pelo mesmo caráter revisionista, como What’s Your Pleasure? (2020), de Jessie Ware, Róisín Machine (2020), de Róisín Murphy, o 15º álbum de estúdio da cantora e compositora australiana se apresenta ao público como um registro essencialmente seguro, livre de possíveis riscos. Da construção das batidas ao uso das vozes, Kylie parece interessada apenas em garantir uma dose extra de diversão e escapismo, sacrificando qualquer traço de renovação e originalidade em favor de uma obra de fácil absorção.

Nesse sentido, Disco é um trabalho que carrega a assinatura da cantora logo na imagem de capa, mas que poderia pertencer a qualquer outro artista. É como um envelopamento nostálgico, puramente estético, indicativo do esforço da própria realizadora em revisitar a fonte criativa de algumas de suas principais obras, como Fever (2001) e Aphrodite (2010). Entretanto, como indicado logo no título do álbum, Kylie em nenhum momento promete nada além desse olhar curioso para o passado, suprindo a ausência de renovação pela entrega de um material essencialmente coeso.

Do momento em que tem início, em Magic, até alcançar a derradeira Celebrate You, cada composição do disco assume a função de revisitar diferentes aspectos do som produzido nos anos 1970, como uma coletânea de ideias e sentimentos empoeirados. “Você me fez começar e nada na terra pode pará-lo / É uma loucura, estou caindo / Eu não sei mais como chamar isso / Garoto, você acredita em magia?“, questiona enquanto pianos caricatos correm ao fundo da canção, sempre atrelados aos versos e confissões detalhadas pela cantora. Instantes em que a artista australiana se entrega por completo dentro de estúdio, porém, preservando o caráter dançante da obra.

São faixas como Real Groove, Where Does the DJ Go? e Dance Floor Darling em que a cantora não apenas incorpora uma série de referências típicas de veteranos do gênero, como sustenta nos versos parte desse direcionamento temático. Claro que isso não interfere na produções de músicas que preservam o mesmo caráter nostálgico, porém, utilizando de novas abordagens criativas. É o caso de Say Something, com seus sintetizadores e guitarras que se entregam ao pop dos anos 1980, como uma parcial fuga do restante da obra. A própria Miss a Thing, com sua linha de baixo suculenta, carrega nas batidas e vozes cristalinas uma linguagem próxima da nu-disco detalhada em Fever.

Mesmo previsível quando próximo de outros exemplares recentes, Disco, como grande parte do extenso repertório da cantora, convence sem grandes dificuldades. Não é difícil se pegar cantarolando logo em uma primeira audição ou acompanhar o ritmo das faixas com a batida dos pés. E não poderia ser diferente. Com mas de três décadas de carreira, Kylie sabe exatamente como seduzir o ouvinte. Composições que seguem por um caminho seguro, porém, sustentam na força dos sentimentos, romances e desilusões iluminadas pelo globo espelhado das discotecas um componente de encanto eficacíssimo.


Jornalista, criador do Miojo Indie e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.