"Supervision"

Ano: 2020
Selo: Supercolour
Gênero: Pop, Synthpop, Dance
Para quem gosta de: Little Boots e CHVRCHES
Ouça: Gullible Fool e Automatic Driver
Nota: 5.0

Crítica | La Roux: “Supervision”

Sejamos honestos: Elly Jackson nunca prometeu nada além de uma viagem nostálgica ao pop dos anos 1980. Do autointitulado registro de estreia como La Roux, de onde brotaram preciosidades como Bulletproof, I’m Not Your Toy e Quicksand, passando pelo amadurecimento criativo de Trouble in Paradise (2014), casa de músicas como Let Me Down Gently e Kiss and Not Tell, foi justamente esse direcionamento saudosista da cantora e compositora britânica que atraiu a curiosidade do público. Um misto de passado e presente que naturalmente define a identidade criativa da artista inglesa, porém, apresenta evidentes sinais de cansaço no recém-lançado Supervision (2020, Supercolour).

Primeiro trabalho de estúdio da artista londrina em seis anos, o sucessor de Trouble in Paradise preserva a essência do registro que o antecede, porém, parece incapaz de dialogar com o próprio público da cantora. Do momento em que tem início, na narrativa triste de 21st Century, até alcançar a derradeira Gullible Fool, com seus mais de sete minutos de duração, Jackson pouco avança criativamente, se perdendo em meio a faixas arrastadas, como uma reciclagem preguiçosa de tudo aquilo que tem sido testado desde o início da carreira.

Entretanto, para além de um resultado previsível, estrutura evidente desde a entrega de International Woman of Leisure, ainda no último ano, o grande problema de Supervision está na incapacidade da artista em não se decidir sobre que direção seguir dentro de estúdio, vagando em meio a canções esquecíveis, mornas. Por mais que Trouble in Paradise não fosse capaz de replicar o pop radiofônico detalhado no primeiro álbum de estúdio da cantora, perceba o esforço de La Roux em mergulhar na inserção de incontáveis camadas instrumentais, sintetizadores e vozes guiadas pela força dos sentimentos, estímulo para a composição de músicas como Paradise Is You e Sexotheque. São faixas propositadamente extensas, porém, coesas dentro do contexto da obra.

Em Supervision, todas as regras e componentes apresentados na introdutória 21st Century permanecem os mesmos até a faixa de encerramento do disco. São guitarras que buscam emular a boa fase de Prince, o uso complementar dos sintetizadores e versos centrados em relacionamentos fracassados, medos e questões existencialistas. “Eu sei que está tudo bem / Mas você só descobre que está perdida durante a luta / E agora você destruiu o amor da sua vida / Ou você está apenas cego“, canta em Automatic Driver, música que sintetiza parte das experiências detalhadas pela artista ao longo da obra.

Falta ritmo, entusiasmo e mínima diferenciação entre as faixas, proposta que naturalmente torna a experiência do ouvinte cansativa, como se tudo não passasse de uma extensa composição que se arrasta por mais de quarenta minutos de duração. Parte dessa evidente morosidade vem da escolha da artista em assumir os arranjos e produção da obra de forma quase solitária, inviabilizando o diálogo com outros instrumentistas e a possibilidade de transitar por diferentes campos da música. Por mais corajosa que seja a decisão de Jackson, Supervision peca pela redundância e conforto, indicativo de uma obra que alcança um meio termo entre as canções do primeiro e segundo álbum de La Roux.

Mesmo a identidade visual utilizada para o material de divulgação da obra permanece a mesma de quando a cantora estreou – há mais de uma década. Uma propositada saturação de cores, roupas estilizadas e pequenas releituras conceituais tratadas de forma nostálgica. É como se La Roux vivesse uma caricatura de si própria. Retalhos estéticos e canções que se revelam como uma tentativa clara de Jackson em replicar o sucesso dos primeiros trabalhos em estúdio, porém, longe da mesma força criativa e leveza que fizeram da artista um dos nomes mais interessantes do novo pop britânico.