"Ladrão"

Ano: 2019
Selo: Ceia
Gênero: Rap, Hip-Hop, Trap
Para quem gosta de: Baco Exu do Blues e BK
Ouça: Deus e o Diabo na Terra do Sol e Ladrão
Nota: 8.8

Crítica | “Ladrão”, Djonga

Abram alas para o rei! Em um intervalo de apenas três anos, Djonga foi de um personagem desconhecido da cena mineira para um dos grandes nomes e principais articuladores do rap nacional. Síntese desse intenso processo criativo e comprometimento estético se revela com naturalidade nas canções de Ladrão (2019, Ceia), obra que não apenas resgata uma série de conceitos originalmente testados nos dois primeiros álbuns de estúdio do rapper, Heresia (2017) e O Menino Que Queria Ser Deus (2018), como reforça de maneira explícita o forte discurso político e crítica social que há tempos vem sendo refinada pelo artista belo-horizontino.

Quando eu era criança, eu andava na rua e me sentia ladrão. Mesmo quando nunca tinha roubado nada, as pessoas olhavam com medo. O tempo passou e eu entendi que tipo de ladrão eu devia ser, esse que busca e traz de volta pras minhas e pros meus. Aí eu fui lá e fiz o que eu sempre fiz: roubei, roubei e trouxe de volta“, escreveu no texto de apresentação do trabalho. De fato, do momento em que tem início, em Hat-Trick, até alcançar a derradeira Falcão, cada verso disparado pelo rapper encontra em pequenas conquistas pessoais e na celebração ao povo preto a base para o fortalecimento criativo da obra.

São rimas cruas que passeiam pela periferia brasileira, seus personagens e instantes de profundo desespero, mas que a todo momento encontram um evidente ponto de redenção. Um minucioso jogo de pequenos contrastes, conceito reforçado com naturalidade em Deus e o Diabo na Terra do Sol, colaboração com Filipe Ret em que discute o atual cenário político do Brasil, a efemeridade da vida e a complexidade das relações humanas. “Comunismo imaginário num capitalismo real / Esquizofrenia geral numa matemática louca / Esquece qualquer espectro político, teórico / Porque na moral, na prática a teoria é outra“, rima o convidado enquanto Djonga completa: “É que eles têm medo do novo, a chama que acende o farol / Seremos Deus e o Diabo na terra do Sol, na terra do Sol“.

A mesma força na composição dos versos acaba se refletindo em outros momentos da obra. Da faixa-título do disco (“Eu vou roubar o patrimônio do seu pai / Dar fuga no Chevette e distribuir na favela / Não vão mais empurrar sujeira pra debaixo do tapete / E nem pra de baixo da minha goela“) à curtinha MLK 4TR3VID0 (“Tá chovendo de gente que fala de rap e não sabe o que diz / Por isso vê lá onde pisa / Respeite a camisa que a gente suou“), música guiada apenas pela voz de Djonga em meio a citações ao trabalho de Jorge Aragão, cada elemento de Ladrão se transforma em um objeto de merecido destaque.

Dos poucos momentos em que se distancia do restante das obra, Djonga se entrega ao romantismo dos versos, como em Leal e Tipo, além, claro, de investir em temas marcados pela forte relação familiar. É o caso de Bença, sétima composição do disco. Confessa homenagem do artista à avó, a canção discute a força da ancestralidade, racismo, o peso da maternidade para as mulheres negras. “Vejo gente criando problemas / Pra competir quem sofre mais, porra, são covardes / Olhe pras suas nega véia e entenda / Que não é em blog de hippie boy que se aprende sobre ancestralidade“, reflete.

De fato, essa forte conexão de Djonga com a própria família acaba se refletindo durante toda a execução da obra. Da imagem de capa do disco, uma fotografia do rapper ensanguentado e segurando uma máscara da Ku Klux Klan ao lado da avó, passando pela forma como o trabalho foi concebido, em um estúdio caseiro na residência de seus familiares, faixa após faixa o artista mineiro encontra em fragmentos particulares a base para um registro conceitualmente amplo. É como se do material apresentado em Junho de 94, uma das principais composições do álbum anterior, o rapper fosse além, refletindo sobre o todo a partir de interpretações e vivências pessoais.



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