"Song for Our Daughter"

Ano: 2020
Selo: Chrysalis / Partisan
Gênero: Folk, Indie, Rock
Para quem gosta de: Sharon Van Etten e Cat Power
Ouça: Held Down e The End of The Affair
Nota: 8.0

Crítica | Laura Marling: “Song For Our Daughter”

Com exceção do primeiro álbum de estúdio, Alas, I Cannot Swim (2008), Laura Marling parece ter encontrado no uso de temas e conceitos específicos a passagem para cada novo trabalho de estúdio. Foi assim com o lançamento de I Speak Because I Can (2010), obra em que discute o peso do machismo e a repressão sofrida diariamente pelas mulheres; na poesia existencialista de A Creature I Don’t Know (2011), um canto amargo sobre a própria solidão; nos três diferentes atos de Once I Was an Eagle (2013) e, principalmente, no lirismo acolhedor de Semper Femina (2017), registro em que utiliza de sentimentos, medos e vivências compartilhadas por diferentes personagens femininas como estímulo para a composição dos versos.

Em Song for Our Daughter (2020, Chrysalis / Partisan), sétimo e mais recente álbum de estúdio da cantora inglesa, a passagem para um novo território criativo. Inspirada pela obra de Maya Angelou (1928 – 2014), Marling utiliza dos versos detalhados ao longo do trabalho como um componente de diálogo com uma filha imaginária. São canções marcadas por conflitos existencialistas, desilusões amorosas e momentos de evidente entrega sentimental, como uma extensão melódica do material entregue pela poetisa norte-americana em uma de suas principais criações, Carta a Minha Filha (2009).

Não por acaso, Marling fez de Held Down a primeira composição do disco a ser apresentada ao público. São pouco mais de quatro minutos em que a musicista britânica passeia em meio a versos confessionais, sempre intimistas, estrutura que se completa pela minúcia dos arranjos e melodias acústicas que ampliam parte do repertório detalhado em Semper Femina. São reverberações nostálgicas que preservam tudo aquilo que a cantora tem produzido desde o início da carreira, porém, encontram na obra de veteranas como Joni Mitchell e Karen Dalton um importante componente de transformação.

De fato, Song for Our Daughter talvez seja o trabalho em que Marling mais se aproxima da música produzida por veteranos dos anos 1960 e 1970. São vozes tratadas como instrumento, em For You e Only The Strong, ou mesmo ambientações acústicas, como em Fortune e Blow By Blow, em que a artista inglesa vai de Brian Wilson a Nick Drake, de Nico à Laura Nyro em uma criativa colagem de tendências. A própria faixa de abertura do disco, Alexandra, encontra em Alexandra Leaving, de Leonard Cohen, um estímulo para a composição dos versos, indicativo do completo esmero que orienta a experiência do público até o último instante da obra.

Entretanto, longe de parecer uma simples reciclagem de ideias, Song for Our Daughter rapidamente se revela como um dos trabalhos mais sensíveis já produzidos por Marling. “O fim do caso / Eu tento nos manter por lá / Aperte a minha mão e diga ‘boa noite’ / ‘Eu te amo’, ‘adeus’ / Agora me deixe viver / Minha vida“, canta em The End of The Affair, música que reflete a completa entrega emocional da cantora. Composições que utilizam de experiências reais e memórias da artista inglesa, mas que a todo momento se conectam com o ouvinte, efeito direto do lirismo honesto que tem sido aprimorado pela musicista desde a estreia com Alas, I Cannot Swim.

Com produção assinada pelo experiente Ethan Johns (Paul McCartney, Kings of Leon), parceiro de longa data na carreira da cantora, Song for Our Daughter nasce como um produto dos sentimentos, conflitos pessoais e histórias mais comoventes já narradas pela artista britânica. Da composição dos arranjos à escolha dos versos, tudo soa como uma extensão natural do repertório apresentado durante o lançamento de Semper Femina. Instantes de parcial recolhimento que se completam pela inserção de melodias detalhistas e vozes cristalinas, cuidado que se reflete mesmo nos momentos mais contidos ou pouco expressivos do trabalho.