"Legacy! Legacy!"

Ano: 2019
Selo: Jagjaguwar
Gênero: Neo-Soul, R&B, Hip-Hop
Para quem gosta de: Noname, Solange e Ravyn Lenae
Ouça: Zora, Giovanni e Miles
Nota: 8.5

Crítica | “Legacy! Legacy!”, Jamila Woods

Seja como integrante do coletivo The Social Experiment, com quem lançou o ótimo Surf (2015); em colaborações com Chance The Rapper, vide o encontro em Coloring Book (2016) ou mesmo em registros autorais, caso do excelente Heavn (2016), Jamila Woods sempre soube como condensar algumas de suas principais referências de forma particular, como um complemento direto à composição dos arranjos e versos. Nada que se compare ao material entregue no segundo álbum de estúdio da artista de Chicago, Legacy! Legacy! (2019, Jagjguwar), uma colorida colcha de retalhos conceituais que aponta para diferentes campos das artes e personagens que influenciaram criativamente o trabalho da cantora.

A principal diferença em relação a tantos outros registros que parecem dançar pelo tempo, coletando ideias e referências pontuais, está na forma como Woods utiliza de elementos do passado, citações e obras específicas para dialogar com o presente. Exemplo disso está em Zora. Inspirada pela obra da escritora e poetisa afro-americana Zora Neale-Hurston (1891 – 1960), a canção utiliza de elementos da obra How It Feels To Be Colored Me (1928) para discutir o privilégio branco e a repressão sofrida diariamente pela população preta. “Nenhum de nós é livre, mas alguns de nós são corajosos / Eu posso ser pequeno, eu posso falar suave, mas você pode ver a mudança na água / Você nunca saberá tudo, tudo / Eu nunca saberei tudo, tudo“, reflete em um misto de canto e rima, estrutura que naturalmente faz lembrar o trabalho de veteranas como Erykah Badu e Ms. Lauryn Hill.

O mesmo discurso racial, porém, partindo de um contexto marcado pelo empoderamento feminino, acaba se refletindo na colaborativa Sonia, encontro com a rapper Nitty Scott. “Engraçado como um título os faz pensar que eles são seus / Te dizendo como se vestir e com quem conversar … Minha tataravó nasceu como escrava / Ela encontrou a libertação antes do túmulo / Quem você está dizendo como se comportar? / Estou tentando perdoar, mas não posso esquecer“, canta em meio a citações aos trabalhos da poetisa e ativista afro-americana Sonia Sanchez. Um reflexão atenta sobre a alma feminina, conceito que ainda se repete em Eartha, homenagem à cantora e atriz Eartha Kitt (1927 – 2008), e Frida, guiada pela relação entre a pintora mexicana Frida Kahlo (1907 – 1954) e Diego Rivera (1886 – 1957).

Mesmo dentro desse universo dominado por referências particulares, citações e incontáveis variações estéticas, Woods em nenhum momento se distancia do ouvinte, estabelecendo pequenas brechas criativas. Da poesia cíclica e fina base instrumental de Giovanni, homenagem à poeta e ativista Nikki Giovanni, passando pela crueza nos versos de Basquiat, colaboração com o rapper Saba, difícil passear pelas canções de Legacy! Legacy! e não se deixar conduzir pelo trabalho da cantora. Um misto de regresso e natural aprimoramento do material entregue pela artista durante o lançamento do antecessor Heavn.

Se por um lado os versos refletem a capacidade de Woods em provar de diferentes temas e desdobramentos poéticos, musicalmente o trabalho avança e cresce, mergulhando em novas possibilidades e ritmos. Exemplo disso está na composição de Betty (for Boogie), faixa de encerramento do disco. Marcada pelo aspecto dançante das batidas e evidente diálogo com o som produzido na década de 1990, a canção não apenas distancia o ouvinte do restante do álbum, como se permite dialogar com a obra de Mary J. Blige e Aaliyah. Mesmo quando resgata a essência de Heavn, como em Baldwin, melodias detalhistas, arranjos de metais e a forte interferência do convidado Nico Segal transportam o registro para um universo marcado pelo permanente senso de renovação e fuga do óbvio.

Completo pela presença do produtor Slot-A, parceiro de Woods durante parte expressiva da obra, Legacy! Legacy! reforça de maneira explícita o forte discurso racial que vem sendo promovido desde o último ano por nomes como Noname, em Room 25 (2018) e, principalmente, Solange, no ainda recente When I Get Home (2019), entregue há poucos meses. São poemas musicados e reflexões pontuais em que a cantora discute o misto de avanço e retrocesso sobre as políticas raciais, o peso do machismo e a necessidade de levante frente ao discurso opressivo de qualquer núcleo privilegiado, estrutura que move o trabalho da artista desde a estreia com o single Blk Girl Soldier.