"Aclimação12-20"

Ano: 2020
Selo: Cavaca Records
Gênero: Dream Pop, Synthpop, Chillwave
Para quem gosta de: Vella, Nuven e Vivian Kuczynski
Ouça: Voraz, Aurora e Pacifica
Nota: 7.7

Crítica | Leveze: “Aclimação12-20”

Quem há tempos acompanha o trabalho do músico Zé Lanfranchi sabe da capacidade do artista paulistano em produzir melodias inebriantes e registros sempre marcados pelo detalhismo dos arranjos. Exemplo disso está em toda a sequência de obras apresentados pelo cantor e compositor ao longo da última década, como os dois álbuns de estúdio do Cabana Café, Panari (2013) e Moio (2016), além, claro, do pop etéreo que embala o único disco do P A R A T I, Superfície (2015), bem-sucedido encontro com Rita Oliva, a Papisa, e casa de composições como Suor, Besteira e Kino.

É partindo justamente desse mesmo direcionamento criativo que o artista revela ao público o primeiro trabalho de estúdio sob o título de Leveze, Aclimação12-20 (2020, Cavaca Records). São oito faixas e pouco menos de 30 minutos de duração em que o músico convida o ouvinte a flutuar em uma nuvem de formas etéreas, melodias cósmicas e instantes de doce calmaria. Composições que se movimentam em uma medida própria de tempo, sempre detalhistas, estrutura que vai do uso instrumental da voz ao tratamento dado aos sintetizadores, conceito que embala a experiência do ouvinte de maneira sublime até o último instante da obra.

Não por acaso, Lanfranchi inaugura o disco com a doce Aurora. São pouco mais de quatro minutos em que camadas de guitarras, batidas e sintetizadores cuidadosamente encaixados apontam a direção seguida pelo músico no interior do álbum. Um lento desvendar de ideias e experiências sensoriais que não apenas ampliam tudo aquilo que o artista havia testado em seus antigos trabalhos, como dialogam com o mesmo pop atmosférico de nomes como Tycho e Washed Out, conceito reforçado na delicada Secrets Over Cigarettes, parceria com Rodrigo Carvalho (The Soundscapes).

Em Toni Maneiro, terceira faixa do disco, uma fuga breve desse mesmo resultado. Instantes em que Lanfranchi preserva a essência minimalista do restante da obra, porém, se permite provar de novas possibilidades, investindo na composição de um material sutilmente dançante. Nada que prejudique o surgimento da introspectiva Voraz, canção que se abre para a chegada de de Fernando Dotta (Single Parentes) e uma síntese clara do lado mais sensível do disco. “Presa no mesmo lugar / Presa no mesmo lugar“, repete a letra da canção, como um mantra que se conecta diretamente à base instrumental.

Passado as ambientações da minuciosa Peixes, um interlúdio marcado por incontáveis camadas de sintetizadores e melodias etéreas, Zenite abre passagem para o lado mais inventivo da obra. Da suculência explícita na linha de baixo ao encaixe de cada componente, tudo salta aos ouvidos. São pinceladas instrumentais, sempre precisas, como um preparativo para o material que chega minutos à frente, em Valse a Vide. Completa pela participação de Papisa e do rapper francês Romain Desouche, a canção alcança um ponto de equilíbrio entre as criações do Cocteau Twins e o som torto de King Krule, ampliando significativamente os limites da obra.

Com Pacifica como canção de encerramento do trabalho, Lanfranchi entrega ao público uma faixa que concentra alguns dos principais elementos detalhados ao longo do registro. Das vozes sobrepostas de Papisa e Carvalho, passando pelo desenho irregular das batidas e ambientações sintéticas, tudo soa como um acumulo das experiências incorporadas em Aclimação12-20. É como se, ao final do disco, Leveze convidasse o ouvinte a reviver parte das experiências do álbum, garantindo ao público uma obra de essência cíclica. Composições que exigem ser revisitadas, apontando novas direções, nuances e estruturas labirínticas.