"Ciranda Sem Fim"

Ano: 2019
Selo: Somax
Gênero: Ciranda, Samba, MPB
Para quem gosta de: Mateus Aleluia, Siba e Isaar
Ouça: Falta de Silêncio e Peixe Mulher
Nota: 8.5

Crítica | Lia de Itamaracá: “Ciranda Sem Fim”

Imersa em meio a sintetizadores e ruídos atmosféricos, a voz forte de Lia de Itamaracá rompe com o silêncio, ganha forma e cresce. “Eu amo a falta / De silêncio / Do mar / Odoyá / Na maré cheia / Eu canto / Pra levantar / Na maré seca / Eu deito / Odoyá“, canta, na introdutória Falta de Silêncio, delicada composição que aponta a direção seguida no quarto e mais recente álbum de estúdio da cantora e compositora pernambucana, Ciranda Sem Fim (2019, Somax). São faixas de essência regionalista, ainda íntimas da mesma ciranda que revelou o trabalho da artista há mais de quatro décadas, mas que se permitem provar de novas possibilidades, como um delicado ponto de ruptura e fina renovação.

Parte dessa mudança de direção vem da escolha da própria artista em estreitar a relação com um time seleto de jovens compositores e músicos. Com produção assinada pelo experiente DJ Dolores e a produtora cultural Ana Freitas, Ciranda Sem Fim, a exemplo de Elza Soares, em A Mulher do Fim do Mundo (2015), e Jards Macalé, no ainda recente Besta Fera (2019), costura passado e presente de forma sempre provocativa, estrutura que naturalmente preserva a a sonoridade detalhada nos antecessores Rainha da Ciranda (1977), Eu Sou Lia (2000) e Ciranda de Ritmos (2010), porém, se permite avançar criativamente.

E isso se reflete logo na abertura do disco, na já citada Falta de Silêncio. Pouco menos de três minutos em que sintetizadores de DJ Tudo e Leo D se espalham em meio a inserções eletrônicas assinadas por Benke Teixeira (Boogarins) e DJ Dolores. Uma propositada perversão do óbvio que se completa pelo lirismo místico de Alessanda Leão, artista que lançou há poucos meses o também delicado Macumbas e Catimbós (2019). Um preparativo para o som eletro-acústico que ganha forma na crescente Meu São Jorge, canção que, mais uma vez, mostra a força da pernambucana em estúdio, como se pensada para as apresentações ao vivo.

Partindo dessa estrutura, Lia revela desde criações marcadas pelo forte aspecto folclórico, caso Peixe Mulher, música composta por Ava Rocha, até faixas marcadas por memórias da infância e instantes de doce nostalgia, marca de Desde Menina, composição escrita por Chico César especialmente para a cantora. Instantes em que a artista pernambucana convida o ouvinte a mergulhar em um universo de referências particulares, porém, sempre tingidas pela novidade, vide o uso destacado das guitarras, texturas e demais componentes antes contidos nos antigos trabalhos da cantora, vide a base cíclica, quase psicodélica que toma conta de Lua Ciranda.

Outro elemento curioso na execução do trabalho está no romantismo empoeirado que surge em momentos estratégicos da obra. São faixas como a inusitada releitura de O Relógio, música originalmente lançada na década de 1950 pelo cantor e compositor mexicano Roberto Cantoral, porém, eternizada por Altemar Dutra. O mesmo direcionamento melancólico acaba se refletindo mais à frente, em Companheiro Solidão, um bolero tropical que parece valorizar a presença de cada instrumentista do trabalho, vide o baixo suculento de Yuri Queiroga e os metais que surgem e desaparecem durante toda a execução da faixa.

Claro que essa busca por novas possibilidades não interfere na produção de músicas ainda íntimas dos antigos trabalhos da cantora. Exemplo disso está em Ciranda Sem Fim Para Lia, canção que ganha forma em uma marchinha carnavalesca, costurando vozes em coro e ruídos que reforçam a atmosfera de obra gravada ao vivo. O mesmo direcionamento acaba se refletindo na faixa de encerramento do disco, a extensa Vem Pra Cá Morena / Santa Tereza / Despedida, um pot-pourri que não apenas sintetiza a força criativa da presente obra, como tudo aquilo que Lia de Itamaracá tem produzido desde o início da carreira.



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