"Miss Colombia"

Ano: 2020
Selo: ANTI-
Gênero: Art Pop, Música Latina
Para quem gosta de: Rosalía, Empress Of e Björk
Ouça: Nada, Eso Que Tu Haces e Te Queria
Nota: 8.0

Crítica | Lido Pimienta: “Miss Colombia”

Em 2016, quando Lido Pimienta deu vida ao premiado La Papessa, grande vencedor do Polaris Music Prize de 2017, uma das principais premiações culturais do Canadá, o fenômeno da música latina parecia muito distante do cenário que conhecemos hoje. Longe do sucesso em torno de Despacito, da ascensão de nomes J Balvin e Bad Bunny, ou do aspecto revolucionário em torno da obra de Rosalía, vide o elogiado El Mal Querer (2018), a cantora e compositora de origem colombiana parecia seguir uma trilha isolada, quase solitária, conceito que se reflete na doce melancolia que serve de sustento aos versos e temas instrumentais detalhados de forma sutil ao longo do álbum.

Quatro anos após a entrega do registro, interessante perceber nas canções de Miss Colombia (2020, ANTI-), segundo e mais recente álbum de estúdio, a passagem para uma obra que não apenas resgata tudo aquilo que a cantora havia testado no disco anterior, como firma Pimienta como um dos principais símbolos dessa nova identidade latina. Da fotografia de capa, um misto de quinceañera e imagem religiosa, passando pela composição dos versos e seleção dos ritmos, cada fragmento do trabalho encontra na essência da artista um importante componente de transformação.

Para transcender eu tive que pensar / O que eu era ontem e o que sou agora / E talvez eu tenha sido um pouco ignorante / Eu fui muito inteligente ontem / Em não voltar“, afirma na introdutória Para Transcribir (Sol), música que carrega nos versos o evidente desejo da artista em brincar com a própria identidade criativa. São fragmentos de vozes que se entrelaçam de forma sutil, como se Pimienta preparasse o terreno para o registro que encontra em desilusões amorosas, medos e sentimentos a base para grande parte das faixas. Um delicado exercício de criação que parte de experiências pessoais de forma a dialogar com o ouvinte.

Não por acaso, Pimienta fez de No Pude a primeira canção do disco a ser apresentada ao público. São pouco mais de três minutos em que a artista utiliza de conflitos sentimentais como estímulo para a composição dos versos, estrutura que se completa pela inserção de batidas eletrônicas e fragmentos de ritmos colombianos. É partindo justamente desse mesmo direcionamento estético que a cantora orienta grande parte do trabalho. São faixas como Eso Que Tu Haces, Te Queria e Nada em que estabelece um ponto de equilíbrio entre o experimentalismo e o pop, estrutura que naturalmente aponta para a obra de veteranas como Björk.

Interessante perceber na segunda metade do disco a busca da cantora por um repertório que reflete ainda mais a própria relação com a cultura colombiana. Exemplo disso está na colaborativa Quiero Que Me Salves, faixa gravada em parceria com o Sexteto Tabalá, coletivo centenário de Palenque de São Basilio, no interior da Colômbia, e um dos principais herdeiros da música africana em território sul-americano. Instantes em que Pimienta preserva e perverte a própria identidade, conceito reforçado em músicas como Pelo Cucu e Resisto Ya Ya, sempre marcadas pela força das batidas.

Completo pela presença de Prince Nifty, co-produtor do disco, Miss Colombia evidencia a busca da artista em dialogar com uma parcela cada vez maior do público, proposta detalhada em músicas como as acessíveis Come Thru e Eso Que Tu Haces, porém, de forma sempre detalhista. Canções que carregam séculos de história, referências e ritmos locais, estímulo para o lento desvendar de ideias que orienta a experiência do ouvinte até a derradeira Para Transcribir (Luna). Um delicado exercício criativo que parte das vivências e experiências pessoais de Pimienta, mas que em nenhum momento se revela de forma inacessível, cuidado que se reflete até o último instante da obra.