"Gray Area"

Ano: 2019
Selo: Age 101
Gênero: Hip-Hop, Rap, R&B
Para quem gosta de: Stormzy e Loyle Carner
Ouça: Selfish e Boss
Nota: 8.0

Crítica | Little Simz: “Gray Area”

Mesmo longe de parecer uma novata, vide o material apresentado em A Curious Tale of Trials + Persons (2015) e Stillness in Wonderland (2016), Little Simz sempre pareceu atuar em um universo particular, longe da essência eletrônica que parecia orientar o trabalho de outros articuladores do rap inglês, em sua maioria voltados ao grime/uk garage. Interessante perceber nas canções de Grey Area (2019, Age 101), terceiro e mais recente álbum de estúdio da rapper britânica, um delicado ponto de ruptura criativa. Canções ainda íntimas do lirismo provocativo explícito nos antigos registros da artista, porém, conceitualmente amplas, capazes de dialogar com uma nova parcela do público.

Parte dessa transformação vem da escolha da rapper em explorar muito mais as próprias inquietações do que as cenas e acontecimentos que a cercam. São versos centrados no amadurecimento pessoal da artista e outros conflitos típicos da vida adulta, como reforçou em entrevista ao The Line of Best Fit. ‘Essencialmente, é disso que trata o álbum. É uma grande área cinza. Nada é preto e branco. Nada está gravado em pedra. Acho que quanto mais falo com meus amigos e pessoas da minha faixa etária, mais percebo que todos estamos passando por isso“, respondeu, indicando parte da essência lírica que move o disco.

E isso se reflete com naturalidade na confessional Selfish. “Não consigo dormir a noite / Eu não quero brigar / Meu melhor amigo sou eu / Eu sou tão egoísta“, reflete. São pouco mais de três minutos em que Little Simz e a cantora londrina Cleo Sol partem do próprio isolamento para dialogar com o ouvinte. Frações poéticas que invadem a mente de qualquer indivíduo, estrutura que orienta a experiência do público até o último instante do trabalho, na também colaborativa Flowers, encontro com Michael Kiwanuka. “Sem identificação, sem registro, ‘clube dos 27’ eles dizem / Os bons voam jovens, os bons são nossos grandes / Jimi, Basquiat, Amy, Robert, Janis, Kurt Cobain“, rima em uma delicada reflexão sobre a passagem do tempo e a inevitabilidade da morte.

Claro que essa busca por um material puramente introspectivo não interfere na produção de faixas ancoradas em outros temas e conceitos bastante específicos. É o caso de Boss, canção em que discute machismo e o próprio sucesso de forma intensa. “Eu não preciso desse estresse / Eu sou um chefe de vestido / Entre na fila“, pontua. A mesma crueza na composição das rimas acaba se refletindo mais à frente, na densa Venom, canção em que fala sobre saúde mental e o desejo de estar sempre no topo. “Se você ouvisse o que ouvi em minha mente / Nunca tente, você choraria, isso é mentira, você morreria / Eu jamais quero descer de alto“, confessa enquanto arranjos de cordas e batidas minuciosas lançadas pelo produtor Inflo correm ao fundo da canção, lembrando os primeiros anos de Earl Sweatshirt.

De fato, a forte musicalidade presente durante toda a execução do trabalho é outro importante elemento de transformação em Gray Area. E isso se reflete com naturalidade na curtinha 101 FM. São pouco mais de três minutos em que sintetizadores minimalistas servem de base para a rima descomplicada da artista. A própria faixa de abertura do disco, Offence, concentra em pouco menos de três minutos um colorido catálogo de referências que vai do funk ao soul de forma propositadamente inexata, como se Little Simz testasse os próprios limites dentro de estúdio.

Completo pela presença do jamaicano Chronixx, em Wounds, e o grupo sueco Little Dragon, em Pressure, Gray Area transita por entre gêneros e diferentes possibilidades de forma sempre curiosa, como se cada composição do disco servisse de passagem para um novo universo criativo. São retalhos instrumentais e poéticos que preservam tudo aquilo que a rapper britânica havia experimentado durante o lançamento dos antecessores A Curious Tale of Trials + Persons e Stillness in Wonderland, porém, de forma bem resolvida, indicativo do completo domínio e força criativa da artista durante toda a execução do trabalho.


Jornalista, criador do Miojo Indie e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.

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