"Hannah"

Ano: 2020
Selo: Double Double Whammy
Gênero: Indie, Indie Rock, Folk
Para quem gosta de: Adrianne Lenker e Tomberlin
Ouça: Wonder, Hannah Sun e It's Infinite
Nota: 8.5

Crítica | Lomelda: “Hannah”

Entender quem você é, refletir sobre as antigas inseguranças e evoluir a partir delas. Essa parece ser a base do quarto e mais recente álbum de estúdio de Lomelda, Hannah (2020, Double Double Whammy). Com título inspirado pelo nome da cantora e compositora responsável pela obra, Hanna Read, o registro produzido e gravado em um intervalo de poucos meses, durante o período de isolamento social causado pela pandemia de Covid-19, nasce como o trabalho mais intimista e delicado da artista norte-americana. Canções que partem da mente inquieta e traumas da própria realizadora, fazendo dessa delicada reflexão o estímulo para grande parte do disco.

Tenho alguns arquivos antigos, tenho que encontrá-los / Tenho que extraí-los, tenho que sair / Tenho que ficar bem, tenho que dar“, canta na confessional Hannah Sun, música em que reflete sobre memórias de um passado ainda recente, porém, de forma sempre libertadora. Instantes em que a artista original de Silsbee, Texas, atravessa o terreno nebuloso das próprias ideias, fazendo dessa criativa sobreposição dos elementos um curioso componente de diálogo com o ouvinte, convidado a partilhar dos mesmos traumas, relacionamentos fracassados e traumas que invadem o álbum.

São canções que começam sem saber exatamente onde vão acabar, indicativo do permanente fluxo de pensamento que orienta a experiência do ouvinte até os últimos segundos do trabalho. Frações poéticas que detalham alguns dos principais companheiros de Read nos momentos de maior solidão, como nas citações a Frank Ocean, Yo La Tengo e Frankie Cosmos, em It’s Lomelda, ou mesmo faixas em que mergulha em pequenas inquietações, caso de It’s Infinite. “Olhando para a esquerda novamente / Eu estou esquecendo? / Provavelmente só um sonho / Que chamarei de visão“, canta enquanto se entrega aos próprias incertezas.

É justamente essa ausência de certeza e permanente fuga da realidade que torna a experiência de ouvir o trabalho tão satisfatória. Composições que vão de um canto a outro sem necessariamente parecer confusas, como se tudo fosse detalhado em um mesmo território criativo. Dessa forma, Read entrega ao público um registro que dialoga com toda a sequência de obras apresentadas nos últimos anos, como Forever (2015), Thx (2017) e M for Empathy (2019), porém, partindo de um novo direcionamento conceitual, estrutura que se reflete nas pequenas sobreposição de ideias e músicas que parecem maiores a cada nova audição.

Esse mesmo cuidado no tratamento dado aos versos acaba se refletindo na forma os arranjos são explorados ao longo do disco. Exemplo disso acontece em Wonder, quarta faixa do álbum. Inaugurada em meio a captações tímidas, a canção rapidamente se transforma em um turbilhão criativo. São camadas de guitarras e melodias tortas, lembrando as criações de Adrianne Lenker nos ainda recentes U.F.O.F. (2019 e Two Hands (2019), dois últimos álbuns do Big Thief. De fato, poucas vezes antes Read pareceu tão liberta, conceito que se reflete em Reach e Tommy Dead, composições que parecem apontar para o rock dos anos 1990, lembrando nomes como Built To Spill e Modest Mouse.

Dividido entre instantes de maior calmaria e faixas turbulentas, Hannah nasce como o trabalho mais completo dentro da curta discografia de Lomelda. É como se a cantora, pela primeira vez, fosse capaz de organizar melhor as próprias ideias, mudança que se reflete na maior duração das faixas, uso destacado das guitarras e vozes cada vez menos contidas. De fato, é como se a artista arrancasse tudo aquilo que parecia soterrado no fundo do peito, como uma fuga do reducionismo explícito no ainda recente M for Empathy. Canções que refletem a mente inquieta de Read, porém, naturalmente íntimas de qualquer ouvinte.