"Loom Dream"

Ano: 2019
Selo: Whities
Gênero: Eletrônica, Música Ambiente, Techno
Para quem gosta de: Voices From Lake e DJ Koze
Ouça: Yarrow, Mimosa e Rosa
Nota: 8.5

Crítica | “Loom Dream”, Leif

Loom Dream (2019, Whities) é uma obra viva. Do momento em que tem início, em Yarrow, faixa concebida em meio a captações de campo marcadas pelo canto de pássaros, vozes submersas e ruídos de passos, cada elemento da canção parece trabalhado em uma medida própria de tempo, mergulhando o ouvinte em um universo de pequenos detalhes. São maquinações eletrônicas, porém, tratadas de forma orgânica, efeito direto das incontáveis camadas instrumentais, texturas e sobreposições etéreas que encolhem e crescem a todo instante, tornando a experiência do público sempre incerta.

Parte desse resultado vem do próprio conceito adotado pelo britânico Leif Knowles para a produção do disco. Trata-se de uma obra assumidamente inspirada pela temática das plantas, conceito reforçado no título de cada composição – que cita diferentes famílias de flores, herbáceas e gramíneas –, mas que se completa pela fina base instrumental que rege o trabalho de forma mutável, como raízes que se espalham em um território fértil. Um lento desvendar de ideias e experiências eletroacústicas, como uma criativa desconstrução do material entregue no último álbum de estúdio do produtor, o ótimo Dinas Oleu (2013).

Dividido em duas porções conceituais de 17 minutos, Loom Dream sustenta na primeira metade do registro – formada por Yarrow, Borage e Myrtus –, a passagem para o lado atmosférico da obra. Exemplo disso está em Borage, música concebida em meio a incontáveis camadas de sintetizadores, vozes enevoadas e batidas densas, estrutura que naturalmente faz lembrar o som produzido pelo germânico Wolfgang Voigt na obra-prima do Gas, o excelente Pop (2000). São abstrações eletrônicas que utilizam de captações caseiras como um precioso elemento de corrupção estética, estrutura que ganha ainda mais destaque na faixa seguinte do disco, a delirante Myrtus.

Para a segunda metade do trabalho – composta por Mimosa, Rosa e Pteridium –, Knowles decidiu investir na composição de temas tribais, conceito reforçado nos quase oito minutos que embalam a climática Mimiosa. Inaugurada em meio a cantos de pássaros que naturalmente apontam para os primeiros minutos da obra, a canção lentamente se perde em meio a colagens atmosféricas e entalhes percussivos que ampliam os limites da obra. É como se o produtor utilizasse das mesmas captações de campo utilizadas por nomes como Dolphins Into the Future e Mark Barrot, convidando o ouvinte a se perder em um território à beira-mar.

Nada que se compare ao trabalho do artista na sequência formada por Rosa e Pteridium. São pouco mais de dez minutos em que o produtor britânico brinca com a colagem de ruídos, elementos percussivos, ruídos de vozes de forma propositadamente instável, rompendo de maneira sutil com o som minimalista e atmosférico que embala o trabalho em seus instantes iniciais. Uma completa ausência de certeza que se reflete no fechamento da obra, quando o som de uma sirene rompe com a atmosfera bucólica do disco de forma invasiva e suja, indicativo da completa versatilidade que move as canções do trabalho.

Conceitualmente pensado para além dos limites de estúdio, Loom Dream conta ainda com o suporte de um site interativo concebido pelo artista em parceria entre Joseph Pleass e Alex McCullough. Mesmo o projeto gráfico do disco, marcado pelo aspecto orgânico das texturas, folhas e elementos orgânicos, serve de complemento direto ao som produzido por Knowles. Trata-se de um delicado conjunto de experiências melódicas que parece dialogar diretamente com o título da obra, revelando ao público um tear onírico que convida o ouvinte a se perder em um território marcado pela incerteza das formas instrumentais e lento desvendar de ideias.


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