"Menneskekollektivet"

Ano: 2021
Selo: Smalltown Supersound
Gênero: Art Pop, Eletrônica, Experimental
Para quem gosta de: Jenny Hval e Julia Holter
Ouça: Menneskekollektivit e Losing Something
Nota: 8.2

Crítica | Lost Girls: “Menneskekollektivet”

Transcendental, The Practice of Love (2019), quinto álbum de Jenny Hval em carreira solo, serviu de passagem para um novo território criativo na carreira da cantora e compositora norueguesa. Inspirada pelo texto existencialista de A Hora da Estrela (1977), de Clarice Lispector (1920 – 1977), e os delírios fantasiosos de Alice no País das Maravilhas (1865), do escritor britânico Lewis Carroll (1832 – 1898), a artista foi de encontro às pistas, incorporado elementos que passeiam pela obra de Björk, Kylie Minogue e Madonna. Um colorido catálogo de ideias e referências conceituais que ganham novo resultado nas canções de Menneskekollektivet (2021, Smalltown Supersound), primeiro registro de inéditas no paralelo Lost Girls, projeto dividido com o multi-instrumentista Håvard Volden.

Parceiros de longa data, Hval e Volden seguem de onde pararam há três anos, durante a produção do colaborativo Feeling (2018). São cinco composições extensas em que a dupla norueguesa se concentra na montagem de um registro que avança em uma medida própria de tempos. São incontáveis camadas de sintetizadores, guitarras atmosféricas, batidas eletrônicas e vozes que preservam parte da essência criativa detalhada durante a entrega de The Practice of Love, porém, se permitem trilhar por novos campos criativos, conceito reforçado pelos poemas contemplativos da artista. “Eu penso sobre isso enquanto converso com as testemunhas de Jeová – elas estão na porta / O que é ‘humano? Seria um humano, um ‘eu’?“, questiona de forma provocativa logo nos primeiros minutos da obra, apontando a direção que embala a experiência do ouvinte até a derradeira Real Life.

São letras que discutem a origem da vida, incorporam elementos religiosos, tratam sobre sexualidade e ainda se aprofundam em uma série de temas originalmente testadas por Hval em outros trabalhos. Canções que partem de jogos de palavras e formações cíclicas que se conectam diretamente aos instrumentos e batidas incorporadas por Volden. Exemplo disso acontece em Love, Lovers. São pouco mais de 15 minutos em que a artista norueguesa utiliza de inquietações e conflitos particulares como importantes elementos de conexão com o ouvinte. Fragmentos poético que entrelaçam como mantras, conceito que se reflete logo nos primeiros minutos do registro. “Palavras simplesmente não contêm coisas como amor, amantes / Eles simplesmente não têm coisas como oposição / Amor, amantes / Amor, amantes“, repete em meio a camadas de sintetizadores e melodias tortas.

É partindo justamente dessa estrutura crescente que os dois artistas orientam a experiência do ouvinte até o último segundo da obra. Composições que utilizam de uma montagem conceitualmente previsível, porém, difícil de ser ignorada, efeito direto da criativa sobreposição de vozes que embalam a formação do registro até o último segundo. Observado de maneira atenta, parte expressiva do material apresentado em Menneskekollektivet segue exatamente de onde a artista havia parado no maduro Blood Bitch (2016). Canções que acompanham o fluxo de pensamento da cantora, como um passeio delirante pela mente inquieta de Hval. A principal diferença em relação antigos trabalhos da compositora está na forma como os poemas surgem de forma quase ritmada, como uma resposta aos arranjos, batidas inexatas e momentos de maior experimentação expressos por Volden.

Não por acaso, a dupla fez da própria faixa-título a canção escolhida para anunciar a chegada do registro. Em um intervalo de mais de 12 minutos, os dois colaboradores revelam ao público parte expressiva dos elementos que serão explorados com maior profundidade ao longo da obra. Das vozes declamadas, passando pelo tratamento dado às batidas, sintetizadores e guitarras, tudo soa como uma apresentação das regras e elementos incorporados dentro de cada composição. Claro que isso não interfere na produção de músicas totalmente anárquicas a essa estrutura, caso da derradeira Real Life. São captações de campo, ruídos e maquinações distorcidas que mais parecem pensadas para bagunçar o estranho território criativo proposto por Hval e o multi-instrumentista.

A própria Losing Something, logo nos primeiros minutos do trabalho, reflete a busca da dupla por uma sonoridade deliciosamente acessível, como uma extensão natural do repertório entregue em The Practice of Love. Mesmo Carried By Invisible Bodies, com seus momentos de maior experimentação e vozes delirantes, chama a atenção pelo uso de pequenos respiros instrumentais e melodias aprazíveis. O resultado desse processo está na entrega de uma obra que carrega o que há de mais desconcertante e acolhedor nas criações da artista norueguesa. Instantes em que Hval convida o ouvinte a se perder em um universo onde cada composição incorpora uma linguagem diferente, mesmo preservando parte de estrutura base que se revela ao público logo nos primeiros minutos.

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