"Lover"

Ano: 2019
Selo: Republic
Gênero: Pop, Synthpop
Para quem gosta de: Katy Perry e Selena Gomez
Ouça: Soon You'll Get Better e Lover
Nota: 6.0

Crítica | “Lover”, Taylor Swift

Em algum momento entre Red (2012) e 1989 (2014), Taylor Swift parece ter encontrado a fórmula para toda a sequência de obras que viriam a ser produzidas pelos próximos anos. Escrevo “fórmula” no sentido mais literal da palavra, como um cálculo matemático, um modelo rítmico e melódico à disposição sua realizadora. Basta encontrar um tema específico, como um romance fracassado ou um conflito com outra personalidade do mundo da música — e são muitos —, finalizar os versos e encaixar todos esses elementos dentro de um molde pré-fabricado. O resultado desse direcionamento está na produção de um material que invariavelmente agrada, capturando a atenção do público sem grandes dificuldades, mas que pouco avança criativamente.

Exemplo disso está na estrutura plástica detalhada nas canções de Lover (2019, Republic). Sétimo e mais recente álbum de estúdio da cantora e compositora norte-americana, o registro embalado pela composição de temas românticos segue o caminho oposto em relação ao material entregue no antecessor Reputation (2017), obra em que Swift decidiu brincar com a identidade de “víbora” apontada pela imprensa e seus principais detratores. Entretanto, da formação dos versos, marcado pela semi-padronização das métricas, à base adornada por sintetizadores caricatos, todo soa como uma reciclagem ensolarada do material apresentado há dois anos.

Perfeita representação desse resultado ecoa com naturalidade em Cruel Summer, segunda faixa do disco. Com versos inspirados na eterna rixa com Kanye West, a canção parte de uma estrutura bastante similar aos antigos trabalhos de Swift, costurando estrofe, ponte e refrão em uma base cíclica que se completa pela inserção de vozes em coro, sintetizadores e batidas sobrepostas, sempre destacadas e maiores à medida em que a canção se aproxima do encerramento. Basta voltar os ouvidos para músicas como Bad Blood, Blank Space e Call It What You Want para perceber a evidente repetição de ideias. Mesmo faixas recentes como The Man, I Think He Knows e You Need To Calm Down, todas produzidas para o presente disco, dão voltas em torno dessa mesma formação preguiçosa.

Oposto ao material apresentado nos iniciais Fearless (2008) e Speak Now (2010), falta verdade ao presente álbum de Swift, como se tudo não passasse de um produto estilístico e comercialmente pensado para atingir uma parcela maior do público. Mesmo os versos do trabalho vem sendo trabalhados de forma calculada, evitando possíveis excessos, vide o recorte em parte da letra de ME!, colaboração com Brendon Urie, da banda Panic! at the Disco. Tudo se projeta de forma escapista, quase infantil, conceito que se reflete na imagem de capa do disco, com Taylor como uma Xuxa do nosso tempo, e segue em parte expressiva dos versos, sempre centrados no cotidiano da pobre garota branca e seus conflitos amorosos.

Dos poucos momentos em que perverte essa estrutura, como na acústica Soon You’ll Get Better, colaboração com Dixie Chicks, passando pelo pop econômico It’s Nice to Have a Friend, fica evidente o cuidado de Swift não apenas na direção dos arranjos, como, principalmente, na composição dos versos. “Eu sei o que é ilusão quando a vejo no espelho … Eu apenas finjo que não é real / Eu vou pintar a cozinha de neon, eu vou iluminar o céu / Eu sei que nunca vou conseguir, não há um dia que eu não tentarei / E eu digo a você / Em breve, você ficará melhor“, canta em uma delicada homenagem à própria mãe, em pleno processo de tratamento conta o câncer. A própria faixa-título do disco, mesmo ancorada em habituais preceitos românticos, sutilmente conduz o trabalho para outra direção, refletindo a completa maturidade e entrega emocional da cantora, como uma fuga do pop óbvio que cresce no restante da obra.

Dividido entre instantes de comovente acerto e momentos de previsível reciclagem de tendências, Lover ainda peca pelo excesso. São 18 faixas e pouco mais de 60 minutos de duração, tempo demais para um trabalho concebido a partir de uma mesma base conceitual e melódica, tornando a experiência do ouvinte arrastada. Falta ritmo e maior separação entre as faixas, como se a cantora e o principal parceiro de produção, o músico Jack Antonoff (St. Vincent, Lorde), dessem voltas em torno de um limitado conjunto de ideias, estrutura que prejudica o alcance e natural crescimento mesmo de boas composições apresentadas pela cantora no decorrer da obra.



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