"Bom Mesmo É Estar Debaixo D'água"

Ano: 2020
Selo: Independente
Gênero: MPB, Soul, Jazz
Para quem gosta de: Xênia França e Serena Assumpção
Ouça: Tirania, Ain't I a Woman? e Lençóis
Nota: 8.5

Crítica | Luedji Luna: “Bom Mesmo É Estar Debaixo D’água”

Corpos, versos, batidas, melodias e sentimentos. Em Bom Mesmo É Estar Debaixo D’água (2020, Independente), segundo e mais recente trabalho de estúdio da cantora e compositora baiana Luedji Luna, cada fragmento do registro floresce em um vívido arranjo de formas sempre detalhistas, porém, deliciosamente irregulares. São inserções minimalistas, vozes pequenas quebras conceituais que preservam a essência do material entregue no introdutório Um Corpo no Mundo (2017), porém, partindo de um novo direcionamento estético. Um misto de sequência e fina desconstrução de tudo aquilo que a artista havia testado em algumas de suas principais criações, como Banho de Folhas, Asas e Acalanto.

Feito para ser absorvido do primeiro ao último instante, sem pausas, o trabalho que conta com produção minuciosa de Kato Change, guitarrista queniano que já trabalhou com nomes como Aloe Blacc e Seun Kuti, faz de cada composição um estímulo para a faixa seguinte. São batidas e vozes que se espalham em um labirinto de formas plurais, como se diferentes obras fossem condensadas dentro de um único registro. Canções que preservam a essência tribal, memórias e celebração à negritude que define o álbum que o antecede, mesmo incorporando uma linguagem parcialmente distinta.

Se em Um Corpo no Mundo eu buscava uma África ancestral, em Bom Mesmo é Estar Debaixo D’água eu busco uma África moderna, atualizada“, explicou no texto de apresentação da obra. Perfeita representação desse resultado acontece na própria faixa-título do disco. Do tratamento dado aos arranjos, passando pelo uso instrumental das vozes e melodias calculadas, poucas vezes antes o som produzido pela cantora pareceu tão acessível. Mesmo a releitura de Ain’t Got No, de Nina Simone, música completa por trechos de A Noite Não Adormece nos Olhos das Mulheres, da escritora Conceição Evaristo, mostra a capacidade da artista em costurar diferentes temas e possibilidades dentro de um curto intervalo de tempo.

São canções capazes de dialogar com o ouvinte logo em uma primeira audição, efeito direto do lirismo acolhedor que embala os versos de Luna, porém, maiores e mais complexas a cada nova audição. Exemplo disso pode ser percebido logo nos primeiros minutos do disco, na atmosférica Tirania. Entre orquestrações sublimes que evocam Milton Nascimento, versos descritivos encolhem e crescem a todo momento, jogando com a interpretação do público. “Sorriso canto de boca / Olhos rasgados / Qual a cor? / Qual a cor? / É mistério mesmo“, atiça. Instantes em que a cantora parte de conflitos particulares, confessa sentimentos, sufoca e se permite ser consumida pelo amor, indicativo de uma obra essencialmente ampla.

Dentro desse território regido pelas emoções, surgem músicas como a curiosa Ain’t I a Woman?, canção de essência raivosa que perverte tudo aquilo que a cantora havia testado no disco anterior. “Eu juro / Você vai me pagar / Cada lágrima que eu chorei / Eu guardei só pra te dar / E você e vai beber / No inferno“, canta. A mesma ferocidade pode ser percebida minutos à frente, em Recado, criação marcada pela intensidade dos versos e voz forte da artista. “Sem querer fugir / Sem querer morrer / Sem querer matar / Vou Pra não ficar“, anuncia enquanto pianos e batidas crescentes correm ao fundo da composição. Mesmo a entristecida Lençóis, completa pela poesia de Tatiana Nascimento, reflete a mesma carga emocional, porém, partindo de abordagem diferente.

Nesse sentido, mais do que um complemento ao repertório apresentado em Um Corpo no Mundo, Bom Mesmo É Estar Debaixo D’água nasce como uma obra de transição e busca por novas possibilidades criativas. É como se cada faixa do disco apontasse uma direção específica, indicativo da completa versatilidade da artista e permanente desejo de renovação. O próprio registro visual que acompanha o trabalho, projeto que conta com direção de Joyce Prado, reflete a necessidade de Luna em ampliar os próprios domínios. Frações instrumentais, poéticas e visuais que se entrelaçam em uma colisão de formas sempre detalhistas e sensíveis, como um mergulho na mente, histórias e experiências vividas pela própria cantora.